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Jane, que nasceu em 1867 e morreu em 1955, há 70 anos, se destacou na França por suas escolhas ousadas
Imagem: Biblioteca Nacional da França, 1909/ Domínio Público
O ano é 1911. O anúncio da chegada de uma escritora francesa à então provinciana capital da República caiu como uma bomba na sociedade carioca e alvorotou a imprensa brasileira como poucas vezes se havia visto naquele início de século. A passagem de Jane Catulle Mendès, figura proeminente no cenário literário francês virou acontecimento cultural nas páginas dos jornais locais. Descrita em termos grandiloquentes, ora por seus atributos físicos, ora por seu talento, a celebridade europeia teve sua estadia nos trópicos marcada por uma intensa agenda de palestras, conferências e produção intelectual, culminando na criação da imagem que se transformaria no símbolo maior do Rio de Janeiro: a da “Cidade Maravilhosa”.
Foi assim que a poeta se referiu à cidade pela primeira vez, impactada pelo pôr do sol que presenciou ainda a bordo do navio. Sem imaginar, cunhou o epíteto que atravessaria o tempo e projetaria o Rio de Janeiro aos olhos do mundo. Essa autoria, até então praticamente desconhecida, é finalmente restituída graças ao trabalho do jornalista e pesquisador Rafael Sento Sé, que lança nesta terça-feira, 3, no Distrito Federal, o livro A poeta da Cidade Maravilhosa (Autêntica Editora, 2025, 224 p.).
O livro – que teve lançamento no Rio de Janeiro no último sábado – é resultado de uma investigação que se estendeu por 13 anos, envolvendo arquivos, jornais da época, correspondências e rastros esparsos para entender quem foi esta figura que causou fascínio, foi responsável por cunhar uma expressão até hoje imortalizada e que foi praticamente esquecida da memória literária do Brasil e até mesmo da França. Esse percurso levou a outra descoberta: o volume La Ville Merveilleuse, publicado por Jane em Paris, em 1913, composto por 33 poemas que revelam seu encantamento pela cidade. Inédito até agora em português, o livro apresenta também a tradução desses versos.
“Com maestria literária e apoiado em notável pesquisa, Rafael Sento Sé nos oferece testemunhos da emancipação feminina nas primeiras décadas do século 21. Conduz-nos também ao ambiente intelectual e social de Paris e do Rio”, escreve a historiadora Mary Del Priore no texto de orelha que assina para o livro.
Capa: ReproduçãoJane Catulle Mendès nasceu em 1867 e morreu em 1955 – há exatos 70 anos. Na França, já se destacava por escolhas ousadas. Trabalhou em um jornal inteiramente produzido por mulheres, uma raridade para o período (e talvez ainda hoje). Foi comadre da atriz Sarah Bernhardt, a mais célebre estrela teatral de sua época, e conviveu com escritores e artistas que moldaram a cultura francesa do início do século 21.
Sua família também a aproximava do universo das artes: era viúva do poeta Catulle Mendès, criador e grande divulgador do parnasianismo, estilo em voga também no Brasil e que teve em Olavo Bilac seu maior expoente. Suas enteadas foram imortalizadas por Renoir no célebre quadro As meninas ao piano, hoje no Metropolitan Museum, em Nova York. Jane e o marido abriram espaço em seus saraus para jovens talentos, e foi nesse ambiente que Jean Cocteau recebeu incentivo decisivo para iniciar sua carreira. Já de seu primeiro casamento, o filho Marcel Boussac viria a se tornar o homem mais rico da França e um dos financiadores da maison Dior.
Essa autonomia e visibilidade pública faziam de Jane uma mulher incomum para sua época – e no Brasil não foi diferente. Pretendia ficar poucas semanas e permaneceu três meses, tempo suficiente para se tornar um acontecimento cultural. Ainda nos primeiros dias no Rio, convidou jornalistas para um chá no Hotel dos Estrangeiros – gesto pioneiro que se assemelha a uma coletiva de imprensa, sinalizando sua disposição em se apresentar como intelectual autônoma. Essa autoafirmação, no entanto, também a expôs aos limites da sociedade patriarcal da Belle Époque carioca, como as caricaturas publicadas sem sua autorização, resultado de um trabalho análogo ao dos paparazzi que conhecemos hoje.
As descobertas sobre a passagem de Jane Catulle Mendès pelo Brasil levaram Sento Sé a recuperar também a rede de relações que a poeta estabeleceu no país com mulheres escritoras que, como ela, enfrentaram apagamentos históricos e sobre as quais dedica especial atenção no livro.
Entre elas, Júlia Lopes de Almeida, anfitriã da francesa em seu famoso “salão verde”, que participou ativamente da fundação da Academia Brasileira de Letras, mas foi impedida de ocupar uma cadeira por ser mulher. Gilka Machado, reconhecida por sua poesia erótica e considerada uma das primeiras vozes a assumir publicamente a sexualidade feminina; Leolinda Daltro, professora, sufragista e indigenista brasileira, fundadora do Partido Republicano Feminino, em 1910; e Emília Moncorvo Bandeira de Melo, jornalista, romancista, contista e dramaturga.

Rafael Sento Sé
Foto: Monica Ramalho/ Divulgação
Rafael Sento Sé é carioca da Glória, jornalista e assíduo leitor de jornais antigos. Foi repórter da revista Domingo, do Jornal do Brasil, e colunista de bares e de patrimônio da Veja Rio. Idealizou o blog RJ-450 para realizar a contagem regressiva para os 450 anos do Rio de Janeiro. Para a Prefeitura, fez a curadoria da Biblioteca Rio450, coleção de livros sobre o Rio de Janeiro idealizada para comemorar a efeméride. Realizou pesquisas para o dossiê de tombamento da tradicional Bênção dos Barbadinhos e para a linha do tempo sobre os 80 anos da Editora Record, apresentada na Flip, em 2022. A poeta da Cidade Maravilhosa, pela Autêntica, é seu livro de estreia.
Serviço:
Lançamento do livro A poeta da Cidade Maravilhosa (Autêntica Editora, 2025, 224 p.), de Rafael Sento Sé
Lançamento: Terça-feira, 4 de novembro, às 19h
Local: Platô Livraria (Asa Sul CLS Bloco A Loja 12) Plano Piloto DF