Vereadores de Porto Alegre aprovam privatização dos serviços de água e saneamento

De madrugada, base do prefeito Sebastião Melo (MDB) na Câmara aprova privatização do Dmae em sessão tensa que durou mais de 11 horas
Vereadores de Porto Alegre aprovam privatização dos serviços de água e saneamento

Após uma semana marcada por violência no legislativo, Câmara aprovou por maioria privatização “parcial” do Dmae

Foto: Fernando Antunes/CMPA

Ainda sob o impacto da onda de violência protagonizada por guardas municipais que no dia 15 reprimiram com bombas de gás e balas de borrachas parlamentares de esquerda e manifestantes que se posicionaram contra a privatização do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), o plenário da Câmara Municipal de Porto Alegre aprovou na madrugada desta quinta-feira, 23 projeto de lei que autoriza a prefeitura a delegar, mediante concessão, os serviços públicos de saneamento. A iniciativa do Executivo, aprovada por 21 votos favoráveis e 14 contrários, encaminha a concessão dos serviços de água e saneamento à iniciativa privada – a exatos 18 meses após a enchente que devastou a capital gaúcha e em meio a denúncias de corrupção envolvendo a autarquia.

Com as galerias da Câmara ocupadas por manifestantes contrários à privatização projeto, os vereadores de oposição tentaram barrar o projeto, argumentando que tratava-se de “um cheque em branco” para a administração pública. Após 11 horas de sessão, no entanto, a base do governo garantiu, mais uma vez, a maioria de votos pela aprovação de um projeto do Executivo.

Natasha Ferreira (PT) apresentou reportagens sobre os escândalos de corrupção do Dmae e declarou que a  concessão seria um crime, um caso de Polícia Federal. “Nós colocamos a CPI, nós queremos saber o que se tirou das audiências públicas, queremos saber o que o povo pensa, mas o povo da periferia, quem fica sem água, são essas pessoas que devem definir o DMAE”, ressaltou. A vereadora finalizou sua fala destacando a presença da população em defesa do Dmae nas galerias.

Vereadores de Porto Alegre aprovam privatização dos serviços de água e saneamento

“Querem dar um cheque em branco sem sequer permitir a conclusão das investigações de corrupção no Dmae, que inclusive envolvem ex-diretor indicato pelo prefeito Sebastião Melo”, protestou Giovani Culau (PCdoB)

Foto: Johan de Carvalho/CMPA

Giovani Culau e Coletivo (PCdoB) expressou sua indignação com o governo municipal e sua base na Câmara por pautarem a privatização do DMAE às pressas. “Estão querendo dar um cheque em branco na mão dos empresários, com risco da conta d’água ficar mais cara, como aconteceu com a privatização do Corsan. Querem dar um cheque em branco sem sequer permitir a conclusão das investigações de corrupção no Dmae, que inclusive envolvem ex-diretor indicato pelo prefeito Sebastião Melo.”

Para Pedro Ruas (PSol), a privatização do Dmae é uma prática de destruição da autarquia, afirmando que a gestão utiliza práticas destrutivas para justificar a privatização. “Essa é uma tática usada no mundo inteiro, e no Brasil é aplicada há anos. Colocar uma gestão para destruir o órgão e depois justificar uma eventual privatização”, denunciou.

Jonas Reis (PT) repudiou a concessão do Dmae e acusou o prefeito Sebastião Melo (MDB) de tentar “comandar” a Câmara. “Eles querem entregar o patrimônio do povo, o Dmae”, disse o vereador, lembrando que a CPI do Dmae fez denúncias que não foram investigadas pela bancada da situação. “Denunciaram pagamento de propina e eles dizem que não teve essa denúncia. O vereador Gilvane, o Gringo, denunciou isso na CPI e ninguém deu bola”, protestou Reis, lembrando que o Dmae atualmente não é tributado, mas, depois de privatizado passará a pagar 34% a mais de impostos.

Justificativas

Vereadores de Porto Alegre aprovam privatização dos serviços de água e saneamento

Público presente nas galerias fez manifestações contrárias ao projeto

Foto: Elson Sempe Pedroso/CMPA

A proposta ressalva que os serviços de captação e tratamento de água bruta em operação pelo Dmae não serão concedidos. Prevê, ainda, que não haverá extinção de cargos públicos ou declaração de sua “desnecessidade”.

Conforme o texto, os recursos arrecadados nas licitações da concessão reverterão para modicidade tarifária, investimentos, melhorias, manutenção e operação dos serviços de saneamento, em especial para aqueles relativos ao manejo das águas pluviais urbanas e proteção contra cheias, incluídas as intervenções de infraestrutura, habitação, mobilidade e urbanismo a elas relacionadas que se façam necessárias.

“Sem a modernização do modelo de prestação dos serviços e dos instrumentos jurídicos atualmente vigentes, o município não conseguirá suprir as crescentes demandas voltadas à garantia da segurança sanitária da população, nem mesmo atender à legislação federal”, defende o Executivo na justificativa do projeto.

“O Novo Marco Legal do Saneamento Básico estabelece a obrigatoriedade de universalização dos serviços de saneamento básico pelos municípios até 2033, considerando que 99% da população seja abastecida com água potável dentro de metas quantitativas específicas de não intermitência e 90% da população seja atendida com coleta e tratamento de esgotos”, complementa. O Executivo alega ainda que o descumprimento das metas poderia resultar na perda de acesso a recursos federais.

Emendas

Além do projeto, os parlamentares também aprovaram as emendas 910131415, 18 e 23. A emenda 9 assegura a manutenção da tarifa social para a população de baixa renda e obriga a concessionária a garantir abastecimento emergencial e contínuo de água potável. A emenda 10 institui uma fila de atendimentos prioritários para os chamados provenientes de comunidades em situação de vulnerabilidade socioeconômica, assegurando precedência na triagem, no despacho e na execução.

A emenda 13 prevê a criação de uma conta específica vinculada para assegurar recursos para modicidade das tarifas públicas e financiar a implantação, ampliação e melhoria do sistema de abastecimento de água, esgotamento sanitário e drenagem em áreas vulneráveis, irregulares ou desatendidas pelo município, não contempladas nas metas e investimentos previstos no contrato de concessão. A emenda 14 define prioridade de investimento para áreas de interesse ambiental, turístico, cultural, esportivo e econômico e para comunidades em situação de vulnerabilidade socioeconômica e regiões da cidade com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

A inexistência de pavimentação ou de sistema de drenagem pluvial não constituirá, por si só, impedimento para a implantação da rede de esgotamento sanitário (Emenda 15) e o Executivo deve enviar relatórios mensais à Câmara com informações sobre o andamento do projeto de concessão (18). A emenda 23 estabelece que o contrato de concessão deverá prever metas de universalização para todas as regiões de planejamento da cidade.

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