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Seis a cada dez servidores da Caixa relataram pressão por metas abusivas, assédio ou ameaças de perda da função
Foto: SindBancários/ Arquivo/ Divulgação
Quase metade dos empregados da Caixa Econômica Federal (CEF) sofreu ou testemunhou ameaça de perda de função e sobrecarga de trabalho. Essas práticas são as principais formas de assédio organizacional na instituição. A denúncia é resultado de uma pesquisa nacional que ouviu empregados da CEF sobre o ambiente e as condições de trabalho no banco estatal, encomendada pela Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae) e realizada pela Acerte Pesquisa e Comunicação.
O estudo ouviu 3.820 empregados, ativos e aposentados, entre junho e julho deste ano. A investigação analisou riscos psicossociais e a organização do trabalho no banco público. A Caixa congrega cerca de 83,3 mil empregados. A amostra da pesquisa encomendada pela Fenae representa 4,6% da categoria.
A sobrecarga de trabalho é a principal prática assediadora, aponta a sondagem. Quase metade dos entrevistados foi vítima ou testemunhou algum colega sendo submetido a trabalho e/ou jornadas extenuantes. A exposição a essas práticas de assédio – sobrecarga e ameaça de perda de função – eleva em quase duas vezes o risco de uso de medicação controlada e de diagnósticos psiquiátricos.
Entre os bancários assediados com sobrecarga de trabalho, o uso de medicação controlada sobe de 18,5% para 39,7%. A Fenae estima que o assédio por sobrecarga seja responsável por aproximadamente 10% da medicalização na Caixa.

Takemoto: “a direção da Caixa finge não ver que os empregados e empregadas estão sofrendo com diversos tipos de assédio”
Foto: SindBancários/ Divulgação
Para o presidente da Fenae, Sergio Takemoto, os números confirmam as denúncias do movimento sindical. Ele aponta a pressão por metas, associada ao medo do descomissionamento, como fatores que afetam a saúde mental dos trabalhadores.
Takemoto é incisivo sobre a postura da instituição em relação aos casos de assédio nas agências. “A direção da Caixa finge não ver que os empregados e empregadas estão sofrendo com diversos tipos de assédio”. Ele critica ainda a gestão do trabalho. “Além de não reorganizar a gestão do trabalho para evitar esse tipo de prática, agora impõe um reajuste no Saúde Caixa quase impossível para os trabalhadores”.
O presidente da Fenae cobra medidas urgentes. “A categoria pede urgência na melhoria das condições de trabalho e no Saúde Caixa – este último é fundamental para garantir o tratamento adequado para os empregados que sofrem com assédio”.
Apesar do aumento nos índices de medicalização e diagnósticos por assédio, os afastamentos não refletem o adoecimento. Pelo menos 41% dos empregados nunca se afastaram. Dentre os que se afastaram, 82% não emitiram o Comunicado de Acidente de Trabalho (CAT). A justificativa é o medo de retaliação (37%) ou recusa do gestor (7%). Os dados indicam que muitos empregados trabalham doentes por medo ou desinformação.
As funções gerenciais e o Técnico Bancário Novo Sem Função (TBN S/Função) são os postos de trabalho mais atingidos pela sobrecarga de trabalho. Tiveram exposições de 69% e 68%, respectivamente. Pelo menos seis a cada dez empregados foram expostos à sobrecarga. Bancários mais jovens e mulheres também estão entre os mais expostos.
Considerando a exposição geral (vítima ou testemunha), as classificações das práticas assediadoras mais vivenciadas são: expor a uma sobrecarga de trabalho (67%); retirar a autonomia (56%); gritar ou falar de forma desrespeitosa (55%); e ameaça de perda de função (55%).
A sobrecarga de trabalho também lidera, com 46% trabalhadores vitimados. A ameaça de perda de função fica em sexto lugar na vivência direta, com 27%, mas sobe para a liderança quando analisadas apenas as situações de assédio indireto (testemunha).
No início do governo Lula, a Caixa foi presidida por Rita Serrano. Ligada aos movimentos de funcionários e sindicatos de trabalhadores da Caixa, ela acabou sendo substituída em novembro de 2023 por Carlos Antônio Vieira Fernandes, em um movimento do governo para sua governabilidade.
Vieira Fernandes foi indicado por Arthur Lira (PP/AL), então presidente da Câmara dos Deputados. A consolidação do controle do Centrão se deu em janeiro de 2024. Partidos do Centrão (principalmente PP e Republicanos) lotearam o banco ao emplacar seis dos sete novos vice-presidentes em áreas estratégicas.
Em novembro de 2024, por determinação da Controladoria-Geral da União (CGU), a CEF demitiu, por justa causa, o ex-vice-presidente Antônio Carlos Ferreira de Sousa. Funcionário de carreira do banco, ele estava afastado do cargo desde julho de 2022, quando sugiram denúncias de assédio sexual e moral durante a presidência de Pedro Guimarães, que comandou o banco entre 2019 e 2022, durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.