O romance de Erico Verissimo que escandalizou o padre

Em uma conjuntura mundial conflagrada por posições pró-fascistas sob Mussolini, Hitler e Vargas, O resto é silêncio não foi bem recebido por setores da conservadora Porto Alegre dos anos 1940
O romance de Erico Verissimo que escandalizou o padre

“Pouco me importava se o articulista denunciasse O resto é silêncio como sendo um veneno para a juventude e seu autor como um corruptor amoral e imoral: o pobre homem sequer havia lido o livro”, ironizou Erico à época

Foto: Arquivo Nacional/ Fundo Correio da Manhã/ Reprodução

Erico Verissimo foi alvo de censura e de críticas vorazes de um religioso que não gostou do seu romance O resto é silêncio, lançado pela Livraria O Globo no início dos anos 1940. O episódio merece ser relembrado neste ano de comemorações pelos 120 anos de nascimento – em 17 de dezembro de 1905, em Cruz Alta – e de meio século do falecimento do escritor, em 28 de dezembro, em Porto Alegre.

O ano era 1943. As vitrines da Livraria do Globo amanheceram repletas de exemplares de um novo livro que causaria alvoroço entre os passantes da Rua da Praia, no centro da capital gaúcha. O romance O resto é silêncio saía do prelo com grande expectativa, já que reafirmava a aposta da Globo no jovem autor que chegara a Porto Alegre havia pouco mais de uma década para revolucionar a literatura gaúcha.

Erico era reconhecido à época como um autor moderno por excelência, lembra o escritor e professor de Literatura Luís Augusto Fischer. Além de atuar como editor, ele já publicara Clarissa, seu primeiro romance (1933), Caminhos cruzados (1935), Música ao longe e Um lugar ao sol (1936), o best-seller Olhai os lírios no campo e Saga (1940). “Em seus livros, abordava temas do presente, ambientados na cidade grande, sem se afastar de questões espinhosas, como a pobreza urbana, o papel da mulher, a hipocrisia burguesa e os dilemas do engajamento da arte nas questões políticas que a Segunda Guerra Mundial impunha.”

Fischer repara que Erico escrevia como raros brasileiros. “Em lugar da fascinação pela frase de efeito tão ao gosto da tradição francesa, Erico se guiava pelos padrões mais modernos da narrativa de língua inglesa. Isso quer dizer que, atualizado nos temas e problemas que enfrentava, dialogava com o famoso leitor médio, o mesmo que via fitas do cinema narrativo norte-americano, com o qual, de resto, nosso escritor tinha mais de uma afinidade. Por isso vendia bem.”

O novo romance, no entanto, não foi bem recebido pelo Padre Leonardo Fritzen, que era professor no Colégio Anchieta. Era uma conjuntura polarizada, que lembra 2018, tendo, de um lado, as posições pró-fascistas – Mussolini estava no poder desde 1922, Hitler desde 1933, Vargas desde 1930 e a partir de 1937 em regime de exceção – e, de outro, a visão pró-comunista: Stálin vivia o auge de sua força, e, em 1935, acontecera a Intentona Comunista no Brasil, esclarece Fischer.

O jesuíta não gostou do que leu e resolveu publicar um artigo na revista O Eco, editada pelo Colégio Anchieta. O texto do religioso abria com uma pungida homenagem fúnebre pela morte de um dos filhos do então presidente Getulio Vargas, o “Getulinho”, que fora aluno de Fritzen. O padre aproveitou-se do gancho da morte do jovem e foi além. No espaço que lhe cabia na publicação, atacou ferozmente O resto é silêncio, alvo de uma saraivada de críticas encharcadas de preconceitos e moralismos, em um ataque que o clérigo chamou de “um bom combate”.

Fritzen compara o livro a um “veneno” capaz de corromper as “moças”, “os lares” e as “famílias”. “Jornais e livreiros coniventes, talvez involuntários, no assunto, muito alarde tinham feito do rótulo, que às avessas melhor quadrava com o conteúdo, é pobre, falsíssimo”, aponta o religioso, que, a certa altura, recorre à sua condição de professor para enfatizar os ataques ao romance. “Como educador e mais que tudo pela honra gaúcha fui obrigado a manusear um exemplar que a pessoa amiga me emprestara. E que vergonha senti. E o rubor me subia às faces indignadas.”

O autor se posiciona

O romance de Erico Verissimo que escandalizou o padre

Capa da primeira edição de O resto é silêncio, de 1943

Foto: Igor Sperotto/ Reprodução

A história do livro “venenoso” começa com o relato de um caso real, de uma jovem que despenca do alto de um prédio em pleno centro de Porto Alegre. No livro das suas memórias, Solo de Clarineta, Erico lembra: “Em maio de 1941, num anoitecer de céu limpo com tons de verde cristalino no horizonte, conversava eu com meu irmão numa das calçadas da Praça da Alfândega, tratando de convencê-lo a mudar-se para Porto Alegre, pois Ênio continuava apegado à sua Cruz Alta, quando vi precipitar-se do alto de um dos edifícios vizinho um vulto humano, um corpo de mulher, que, ao bater nas pedras do calçamento da rua, produziu um som horrendo que jamais pude esquecer. Crime? Suicídio? Nunca fiquei sabendo ao certo. Mas esse fato, que me impressionou profundamente, um ano mais tarde serviu-me como ponto de partida para o romance O resto é silêncio”.

Sobre os ataques, Erico diria nas suas memórias: “no caso do artigo do jesuíta, o grave não era tanto o seu conteúdo manifesto, como seu sentido oculto. Pouco me importava se o articulista denunciasse O resto é silêncio como sendo um veneno para a juventude e seu autor como um corruptor amoral e imoral. De resto percebia-se que o pobre homem, isto é, o articulista, nem sequer havia lido o livro”.

O próprio autor relataria que os ataques do padre não ficaram sem resposta. “Era preciso reagir, mesmo que fosse de maneira meramente simbólica. Foi o que fiz quando contratei um advogado para processar o padre, que nunca cheguei a ver pessoalmente, e cuja punição jamais desejei nem esperei”, recordou. “Eu queria que meu gesto fosse interpretado como um protesto contra a situação vigente no país.”

No artigo A polêmica entre Erico Verissimo e um padre jesuíta, publicado em Erico e Seu Tempo (Plátano, Porto Alegre, 2005), o professor Luiz Osvaldo Leite observa que o autor “sempre foi um democrata e não aceitava o autoritarismo de Getúlio e do Estado Novo, com um apoio de parte da Igreja”. Segundo Leite, a ação judicial não prosperou. O padre foi absolvido, e Erico teve que pagar as custas do processo. O escritor recorreu, mas a Justiça manteve a absolvição. Fritzen foi transferido para o Seminário de Cerro Largo, e Erico aceitou um convite do Departamento de Estado dos EUA para lecionar Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia. Mudou-se com a família para Berkley, de onde retornaria em 1945. Conforme o professor Leite, depois de algum tempo e a distância, o escritor e o sacerdote admitiram uma reconciliação. Fritzen faleceu em 1965; Erico, em 1975.

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