Maioria dos brasileiros rejeita anistia e reforça defesa da democracia nas ruas

Movimentos do 7 de Setembro mostram apoio à punição de golpistas, contrariando pressão bolsonarista por perdão
Maioria dos brasileiros rejeita anistia e reforça defesa da democracia nas ruas

7 de setembro: Grito dos Excluídos e Excluídas reuniu manifestantes na região central da cidade do Rio de Janeiro (RJ); pesquisas apontam maioria dos brasileiros contrários à anistia e contra tarifaço de trump

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Os movimentos do 7 de Setembro revelaram um país que, em sua maioria, rejeita a anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro e defende a consolidação democrática. Enquanto apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) saíram às ruas para exigir perdão ao ex-presidente, movimentos populares deram o tom contra a proposta de anistia a golpistas. Pesquisas de opinião mostram que entre 51% e 63% dos brasileiros se opõem à medida, defendendo a responsabilização dos que atentaram contra a democracia.

O contraste ficou evidente durante as mobilizações. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comandou em Brasília o desfile oficial sob o discurso da soberania nacional, ecoado por movimentos sociais em todo o país que bradaram “sem anistia para golpistas”. Do outro, bolsonaristas concentraram-se principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, chegando ao ponto insólito de desfraldarem bandeiras dos Estados Unidos e agradecerem ao ex-presidente Donald Trump por pressões contra o Brasil.

A resposta da maioria da população veio através do Grito dos Excluídos, evento tradicionalmente organizado por movimentos sociais, que se espalhou por todo o país com pautas centradas na justiça social e na defesa da democracia. Diferentemente dos atos bolsonaristas, que se limitaram a grandes centros com adesão tímida em capitais menores, as manifestações pela consolidação democrática alcançaram tanto grandes cidades quanto municípios do interior.

Na capital gaúcha, Porto Alegre, movimentos sociais, sindicatos e pastorais da Igreja Católica bradaram o lema “sem anistia para golpistas, Bolsonaro na cadeia”. Os participantes defenderam a responsabilização dos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro e criticaram propostas de anistia em debate no Congresso, ecoando o sentimento da maioria dos brasileiros.

Parlamentares presentes reforçaram a necessidade de punições exemplares para os réus da tentativa de golpe e lembraram que a democracia só se consolida com mobilização popular. “Não somos, nem seremos, colônia de ninguém. Não aceitamos ordens de fora”, declarou Lula, numa referência direta às pressões vindas dos Estados Unidos, classificando políticos que pedem intervenção estrangeira como “traidores da pátria”.

Rejeição ao perdão para golpistas

Os dados de opinião pública reforçam o que as ruas mostraram, mesmo que por amostragem tímida. Levantamento Datafolha de dezembro de 2024 apontou que 62% rejeitam a anistia, contra 33% que defendem a medida. Em março do mesmo ano, a mesma pesquisa já havia registrado números semelhantes: 63% contra e 31% a favor.

Em 2025, a tendência se manteve. A Quaest mostrou que 56% se opõem à liberação dos condenados e apenas 34% apoiam algum tipo de anistia. No mesmo período, o PoderData registrou 51% contra e 37% a favor. Os números revelam que, embora exista uma parcela da população favorável ao perdão, o sentimento majoritário é de que os responsáveis pelos atos golpistas devem ser punidos.

Enfraquecimento do movimento bolsonarista

Para o cientista social João Feres Júnior, professor da UERJ e coordenador do Monitor do Debate Público, as manifestações revelam sinais de enfraquecimento no campo da direita. “As manifestações estão menores, com grupos desagregados, que não parecem dialogar entre si. O movimento está fazendo água”, avalia.

A ausência física de Bolsonaro, em prisão domiciliar, deu à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) o protagonismo nas manifestações. Ao lado do pastor Silas Malafaia, em São Paulo, Michelle proferiu discurso carregado de simbolismo religioso: “Quem deveria estar aqui é meu marido, que está amordaçado em casa com tornozeleira eletrônica, mesmo sem ter sido julgado”.

Estudos recentes sobre redes sociais reforçam a percepção de isolamento do movimento. Pesquisa da Palver para a Agência Pública mostra que o discurso em defesa da anistia não conseguiu furar a bolha digital dos apoiadores do ex-presidente. “Eles estão bastante enquistados na franja mais radical”, avalia Feres Júnior.

Do pedido de intervenção militar ao apelo a Trump: a psicologia do extremista

Maioria dos brasileiros rejeita anistia e reforça defesa da democracia nas ruas

Manifestantes da extrema-direita na Av. Paulista, em São Paulo (SP), optaram por carregar com orgulho uma enorme bandeira dos Estados Unidos

Foto: Reprodução/YouTube

O fenômeno das bandeiras americanas nas manifestações bolsonaristas representa uma mudança significativa na retórica do movimento. Os antigos pedidos de intervenção militar evoluíram para um apelo inédito por ajuda internacional, com manifestantes erguendo bandeiras norte-americanas e israelenses em demonstração de gratidão a Trump.

Segundo uma psiquiatra e psicanalista ouvido pelo Extra Classe, essa transição revela aspectos profundos da dinâmica de grupo. “Para a psicanálise, a mudança de foco do grupo é uma transferência simbólica. Após a falha do líder e da figura de força interna (os militares) em ‘salvá-los’, os manifestantes projetam em uma nação estrangeira, vista como um baluarte de ordem e poder, a figura de um ‘Grande Outro’ ou um ‘salvador’ idealizado”, explica a profissional que, por questões éticas, pediu anonimato.

“Tenho pacientes, tanto clínicos, quanto de terapia, que são bolsonaristas empedernidos”, explica, ela que relata um trabalho difícil. Sob a perspectiva da psicologia das massas, o comportamento representa “uma reação de defesa coletiva contra a frustração e a desilusão”, entende. É por isto que, diante do fracasso das estratégias anteriores, o grupo busca uma “solução mágica” para evitar o colapso emocional e a desintegração do movimento.

Já a psicanalista Maria Rita Kehl é direta: “Eles querem, até lá por uma entidade politicamente forte que é o governo dos Estados Umidos, algo que possa abalar o Brasil. Enfim, essa bandeirona dos Estados Unidos na paulista é uma tentativa de mostrar que ‘a gente tem a força””, acentua.

O ato de desfraldar bandeiras americanas no epicentro econômico do Brasil chamou atenção internacional, com matérias em veículos como The New York Times, The Guardian e El País.

Decisão histórica em andamento

A partir desta terça-feira, 9, cinco ministros do STF devem proferir seus votos no julgamento de Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe de Estado, associação criminosa e outros crimes. A expectativa é que o veredito seja conhecido até sexta-feira, em um dos processos mais importantes da história recente do país.

O resultado não apenas definirá o futuro político do ex-presidente, mas poderá influenciar decisivamente os rumos da política brasileira. Com a maioria da população defendendo a punição aos golpistas e a consolidação democrática, o país aguarda uma decisão que pode reconfigurar o cenário político para os próximos anos, alinhando as instituições ao sentimento da maioria dos brasileiros.

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