Política
De Caracas a Teerã – a lógica de Trump
Especialistas divergem: para um, Trump segue uma lógica para atingir a China; para outro, o…

Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
O Plenário da Câmara dos Deputados discutiu, nesta quarta-feira, 20, o Projeto de Lei (PL) 2628/22, também conhecido como PL da Adultização e ECA Digital, que estabelece regras de proteção a crianças e adolescentes em ambientes digitais. Especialistas, ativistas, juristas, parlamentares e representantes do governo defenderam a aprovação da proposta, já aprovada no Senado e em análise na Casa.
O tema ganhou força após a divulgação de um vídeo do criador de conteúdo Felca, que levantou a discussão sobre a exposição de jovens na internet.
O texto obriga empresas de tecnologia a criarem mecanismos para impedir o uso de seus serviços por crianças e adolescentes, quando não forem destinados a esse público. A proposta também determina a oferta de ferramentas de controle parental, capazes de limitar conteúdos, restringir o contato direto entre adultos e menores e controlar o tempo de uso.
A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, destacou que a proposta pode ser votada ainda nesta quarta-feira. “A ausência de regras que protejam o mais frágil prioriza a violência, ódio e lucro financeiro em detrimento da vida de nossas crianças”, afirmou.
Segundo a ministra, a aprovação é imprescindível porque a falta de regulação tem contribuído para a “manutenção da impunidade” em práticas prejudiciais a grupos vulneráveis.
A ex-governadora do Paraná e empresária Cida Borghetti reforçou a necessidade de ampliar a proteção da infância. “A infância precisa ser protegida em todos os ambientes onde a criança vive, seja nas ruas, nas escolas ou na família. Hoje precisamos ampliar essa proteção também para o ambiente digital”, disse.
Arte: Agência CâmaraPlataformas digitaisRepresentantes das plataformas também participaram do debate. A gerente de Segurança e Bem-Estar da Meta na América Latina, Taís Niffinegger, afirmou que a empresa investe continuamente na detecção e remoção de conteúdos impróprios.
“As nossas políticas não permitem nudez, abuso e exploração de menores. Também temos regras contra formas mais implícitas de sexualização. Utilizamos tecnologia para identificar comportamentos suspeitos de adultos”, explicou.
Já a diretora de relações institucionais do Conselho Digital, Roberta Jacarandá, destacou que o país não está diante de um vazio jurídico, lembrando que a Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados já tratam do tema.
“Hoje falamos de sistemas robustos de detecção e prevenção de conteúdos nocivos. Em 2024, a Meta removeu mais de 34 milhões de conteúdo ligados a exploração infantil de suas plataformas”, citou. Para ela, é fundamental criar uma cultura de cuidado digital, com educação sobre segurança online e atuação mais firme das autoridades policiais.
O diretor da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, Oscar Vilhena, avaliou que a legislação atual é robusta, mas insuficiente diante dos desafios digitais. “Famílias e professores não têm condições de fazer a defesa de seus filhos”, afirmou.
O deputado distrital Fábio Felix (Psol) defendeu que as empresas assumam suas responsabilidades. Ele e Vilhena rejeitaram o argumento de que o projeto representaria censura. “Direitos das crianças têm primazia. Então, não é cabível mencionar censura”, disse Vilhena.
Entre as sugestões feitas durante o debate, estiveram a remoção de conteúdos digitais e penas mais rigorosas para crimes de exploração sexual e aliciamento de menores.
A deputada Maria do Rosário (PT-RS), que presidiu parte da sessão, explicou que o PL 2628/22 não é exaustivo e que outras propostas também estão em análise na Câmara.
Segundo ela, os deputados levarão em conta as contribuições apresentadas. “Trabalharemos a partir do superior interesse da criança, pensando o Brasil que queremos”, afirmou.
Na última terça-feira, 19, a ala ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirma que o Projeto de Lei 2628/22 seria um pretexto da base governista para avançar na regulação das redes sociais.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), definiu o regime de urgência após reunião com líderes partidários, nesta terça-feira (19). Com isso, o texto pode ser apreciado diretamente no plenário, sem passar pelas comissões temáticas. A votação está prevista para esta quarta-feira (20).
O líder do Novo, deputado Marcel Van Hattem (RS), criticou a proposta. Segundo ele, o projeto dá ao governo “instrumentos para censurar” a população.
“É um projeto que, lamentavelmente, está sendo utilizado sob o pretexto de combater aquilo que precisa ser combatido, que é pedofilia, que é exposição ilegal de crianças nas redes sociais, para dar ao governo instrumentos para censurar a população brasileira sem uma decisão judicial. Isso é algo muito grave”, declarou.
Se confirmada, essa será a segunda obstrução desde o início dos trabalhos do semestre.
Na mesma terça-feira, Hugo Motta também colocou em pauta o projeto que altera o regimento interno da Câmara para permitir a punição sumária de deputados que invadirem o plenário. A medida foi definida em reunião com os líderes partidários.
De acordo com reportagem do The Intercept Brasil, no dia 14 de agosto, uma proposta de emenda ao PL 2628/22, que reduz responsabilidade das big techs foi oficializada por Fernando Máximo, do União Brasil. Porém, a partir do rastreamento dos metadados, foi constatado que verdadeiro autor é executivo da Meta. Os metadados dos arquivos disponibilizados no site da Câmara revelam que, das quatro emendas apresentadas por Máximo – todas a favor dos interesses das big techs –, duas foram criadas diretamente por Marconi Borges Machado, executivo que ocupa desde 2017 o cargo de gerente de políticas públicas na Meta.