O último suspiro da Europa

Uma bela vida, último filme do diretor franco-grego Costa-Gravas chegou às salas brasileiras carregando um um falso otimismo no título, se comparado à tradução do original, Le dernier souffle

O último suspiro da Europa

Foto: Reprodução/Canal+

Estreia recente nos cinemas, Le dernier souffle, traduzido por Uma bela vida em português, é o último filme do diretor franco-grego Costa-Gravas. O título que chega às salas brasileiras, porém, predispõe a um falso otimismo quando comparado ao nome original do longa-metragem, O último suspiro. Ao contrário de uma reflexão sobre a dor e a delícia de viver, a história é uma adaptação do livro Le dernier souffle: accompagner la fin de vie (O último suspiro: acompanhar o fim da vida), no qual o filósofo Régis Debray dialoga com Claude Granger, médico especialista em cuidados paliativos, sobre a finitude e a importância de dar dignidade aos instantes finais da vida de uma pessoa.

Em entrevista ao crítico de cinema Serge Kaganski, publicada na revista Mastermind, Costa-Gavras disse que, aos 90 anos,

Quando Régis (Debray) me enviou seu livro, achei-o muito interessante. Pensei se eu conseguiria encontrar um fio condutor, uma história fictícia que se desenvolvesse com personagens. Acabei imaginando que o filósofo (o escritor Fabrice Toussaint, interpretado por Denis Podalydès) tem uma lesão cancerígena sobre a qual só conta à esposa, e ele acompanha a evolução desse problema. Seu interesse pela doença se transforma em interesse pelo fim da vida e pela morte. Também pensei que o final do filme não poderia ser um funeral. Nunca me esqueço de que um cineasta faz espetáculos, não discursos acadêmicos. (

Vida e morte, Eros e Tânatos, impregnam todos os elementos da narrativa, cuja tomada inicial, não à toa, mostra a pintura Morte e Vida, de Gustav Klimt. Na trama, após a descoberta de que sinais de morte passaram a se inscrever em seus pulmões, Fabrice Toussaint ampara sua ansiedade e angústia existenciais ao acompanhar a jornada do doutor Augustin Masset (Kad Merat), especialista “no final da vida”, visitando pacientes terminais. Jovens, idosos, pessoas que se negam a morrer para não abandonar o companheiro ou o cão, pais que buscam viver os últimos dias ao lado dos filhos por eles abandonados, tornam-se a paisagem humana e o tema das conversas entre o pensador (não apenas um voyeur da morte, mas alguém que se inicia em seus ritos) e o médico, que critica o modelo de medicina vigente, obcecado pela cura, como se ao especialista coubesse o papel de super-herói em luta ferrenha contra a doença. Em uma Europa cada vez mais envelhecida (na Itália, por exemplo, em 2024 nasceram apenas 370 mil bebês, ao passo que houve 651 mil óbitos e 360 mil pessoas que optaram por deixar o Bel Paese), pensar em como morrer é tão premente quanto pensar em como viver. E, assim como no poema de Konstantinos Kaváfis, a cinza das velas acumuladas nos dias passados somam muito maior número do que aquelas a serem acesas aos dias que virão.

Como marca da trajetória de um criador cujos filmes sempre foram políticos, tais como os clássicos Z (1969), A confissão (1970), Estado de sítio (1972), Sessão especial de justiça (1975) e Desaparecido: um grande mistério (1982), Le dernier souffle também representa um ponto de vista crítico sobre as formas como a sociedade ocidental tem aceitado e administrado a velhice e a morte. Contudo, por trás de um direito individual à assistência digna nos últimos instantes e ao grito de matriz existencialista de que cada um é o sujeito de sua história e que, portanto, deve ter a capacidade de tomar a decisão de quando abreviá-la, há outra interpretação que passou ao largo das muitas e merecidas loas que o longa tem recebido. Trata-se do subtexto sutil de que o filme também revela o último suspiro ou o atestado de óbito de uma Europa envelhecida e incapaz de ser relevante nas décadas iniciais do século XXI.

Seja devido à pequenez de líderes como Meloni, Salvini, Ursula von Der Leyen, Kaja Kallas ou mesmo Macron, seja devido à incapacidade de propor alternativas viáveis para os problemas atuais (crise climática, esgotamentos dos recursos terrestres, ameaça de guerra, pobreza e desemprego contrapostas à mais-valia de trabalhadores cada vez mais precarizados), muitos políticos europeus “comemoram” as tarifas impostas por Trump; aprovam pacotes de sanção à Rússia em razão do conflito com a Ucrânia, comprometendo a própria matriz energética e comprando recursos muitos mais caros dos EUA; submetem-se às diretrizes da Otan, financiando uma guerra em que suas nações mais têm perdido do que ganhado e calam-se ou são coniventes diante dos desmandos trumpianos em seus tarifaços contra o Brasil e no extermínio massivo da população em Gaza. Não estranha, portanto, que mesmo uma instituição milenar como a Igreja Católica, cuja história é indissociável do processo de ocidentalização do mundo, tenha seus dois últimos papas vindos do continente ao qual europeu Cristóvão Colombo aportou em 1492.

Como o político e poeta Aimé Césaire escreveu no seu Discurso sobre o colonialismo, a Europa não se horrorizou com a chacina do Holocausto devido à crueldade em si, mas por ver que as mesmas técnicas de segregação e extermínio utilizadas nas colônias africanas nas mãos de europeus eram agora usadas em seu próprio território. Por isso, para ele, “a Europa não tem salvação”. Talvez a culpa pela Shoah seja responsável pelo silêncio em relação à Gaza. Talvez o “velho continente” esteja pagando o preço pelos séculos de exploração colonial que o levaram a ser o que é. Porém, o que chama atenção é que, apesar da destruição e da pauperização fomentada pelas antigas metrópoles, a Europa também foi berço do Iluminismo, do Humanismo, de ideias e revoluções que buscavam a igualdade, a liberdade e a fraternidade entre os povos. Hoje, o continente não está à altura das ideias que já gestara, tornando-se a casca vazia dos discursos que tentavam humanizar suas ambições.

O filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi, nos últimos anos, tem escrito sobre a importância de desertar como ato político. Desertar do trabalho compulsório e precarizado, do consumo, da participação cívica em regimes burocratizados que apenas reproduzem a si mesmos e até mesmo da reprodução são as alternativas dadas àqueles que não veem perspectiva nem esperança possíveis no mundo em que vivemos. Não estranha as taxas de natalidade no dito mundo desenvolvido estarem tão baixas. Para Bifo, é como se as mulheres tivessem inconscientemente ou não se rebelado frente a um sistema que só terá a entregar aos seus filhos formas de vida cada vez mais pauperizadas.

No filme de Costa-Gravas, a esperança e outros pontos de vista com os quais entender a vida, a morte e a história vêm de populações que foram vítimas de processos de exclusão perpetrados por europeus. O médico aprendeu outra relação com a morte ao conhecer populações e costumes nativos do Senegal, onde os idosos são sinônimo de sabedoria e ancestralidade. Os ciganos encaram sorridentes o fim em meio a danças e músicas. As crianças assistindo a filmes pornô no porão representam uma nota de Eros, de pulsão de vida e de encontro, em meio a paisagem tomada por Tânatos, a morte que embala seus avós.

Quem sabe a Europa se encaminhe com celeridade para ser apenas um museu a céu aberto, uma casa das musas, dando corpo a um estado de museificação de mundo, o que, segundo Giorgio Agamben, corresponde a um processo de retirada de tudo aquilo que é vital para o espaço público e para a vida da população a fim de destiná-lo a um lugar anódino onde apenas o especialista terá acesso e saberá dar valor.

Por outro lado, os países do chamado Sul Global, que carregam as cicatrizes da colonização europeia, tornam-se hoje cada vez mais politicamente relevantes. Este cenário lembra outro poema de Kaváfis, à espera dos bárbaros, no qual todo dia pergunta-se se os bárbaros (isto é, aqueles que vêm de fora e não falam a mesma língua, tratados em geral como inimigos) vieram, pois apenas esses bárbaros seriam uma solução.

Requiescat in pace.

Arthur Beltrão Telló é escritor,  doutor em Teoria da Literatura, professor da PUCRS e dirigente sindical. Confira outros artigos do autor.

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