Tom Belmonte lança o livro Rincão do Inferno em Porto Alegre

A segunda parte da trilogia Círculo de Sangue chega às livrarias como faroeste fronteiriço e drama familiar; a sessão de autógrafos será nesta quarta, 6, a partir das 18h30, no Espaço Amelie

 

Tom Belmonte lança o livro Rincão do Inferno em Porto Alegre

Foto: Cristian Foix/ Capa: Reprodução

O escritor e jornalista gaúcho Tom Belmonte lança em Porto Alegre, Rincão do Inferno (Carta Editora, 2025, 244 p.), segundo livro da trilogia Círculo de Sangue. O evento será na quarta-feira, 6 de agosto, a partir das 18h30, no Espaço Amelie (Rua Vieira de Castro, 439, bairro Santana). A noite terá participação musical do multi-instrumentista Márcio Petracco (TNT e Conjunto Bluegrass Porto-Alegrense).

O romance policial, de narrativa fácil para quem lê, intencionalmente despretensiosa, e que remonta uma das grandes influências do autor, os livros de bolso (literatura pulp) vendidos nas bancas de jornais dos anos 70 e 80  com histórias policiais, de detetives, sexo, espionagem, bang bang e romance. Tudo aquilo a que hoje chamamos de “tarantinesco”, por ter sido também a mesma fonte de inspiração do hoje consagrado Quentin Tarantino, diretor do já clássico Pulp Fiction, entre outros.

Faroeste na fronteira, com um pé na estrada e outro no drama

À moda Tarantino, o livro de Tom se filme fosse teria de tudo: western, drama, road movie e policial entre outros gêneros. Com naturalidade narrativa, mesmo quando alterna tiros, perseguições e elementos sobrenaturais, o autor ambienta sua história no Pampa e na fronteira oeste gaúcha, onde o autor explora a história da família Silveira, marcada por desamor, assassinato, vingança e disputas por dinheiro. A trama revela rupturas emocionais profundas e um cenário de vazio existencial para as personagens.

Com capa assinada por Éverson Godinho, texto de orelha do escritor e cineasta Boca Migotto e prefácio do jornalista Humberto Trezzi, o livro expõe o universo fraturado da família Silveira e daqueles que a cercam. O livro é a continuação de Círculo de Sangue (Carta Editora, 2023, 192 p.).

Divãs e encruzilhadas

“De maneira crua e por vezes sutil, a narrativa é conduzida a divãs e encruzilhadas emocionais, mostrando que os limites entre a sensatez e a loucura são tênues e o estopim para as sombras das personagens são a mágoa, o rancor e o orgulho”, descreve Boca Migotto.

Segundo o cineasta, Rincão do Inferno se passa na Porto Alegre do início do século, na fria Zurique e nas cidades de São Borja, Itaqui e Bagé, além de Aceguá, no Uruguai. É nesse rincão de tradição caudilhesca que o autor constrói batalhas espirituais envoltas em ancestralidade e na natureza humana de controle e confronto.

Thriller de ritmo intenso

“Daqueles thrillers de manter punhos cerrados, dentes apertados, olhos fixos à espera de mais um lance frenético”, ressalta Humberto Trezzi. Para ele, Belmonte costura passado e presente com habilidade: “Celulares ao lado de punhais, ambulâncias e cavalos em galope, revólveres herdados e fuzis novos. Mulheres fatais armadas ou carregando perfídia. Clubes, restaurantes e puteiros. Até uma trupe de ciganos se envolve na trama de assassinatos e vinganças”.

Conversa ligeira com Tom Belmonte

Tom Belmonte lança o livro Rincão do Inferno em Porto Alegre

Tom Belmonte, jornalista e escritor

Foto: Divulgação/Acervo

Belmonte já passou pelo rock gaúcho, onde foi vocalista da banda Borboleta Negra (embrião da Comunidade Nin-Jitsu) e depois atuou por décadas no jornalismo policial no Rio Grande do Sul. Também teve uma passagem pela Secretaria de Segurança Pública do RS como assessor de Imprensa e também como repórter free lancer para o Extra Classe. Hoje vive na costa sul-catarinense, onde comanda o programa Tudo em Pauta, de segunda a sexta-feira, na Rádio Litoral FM 90.9 de Tubarão (SC). Às vésperas do lançamento concedeu entrevista ao Extra Classe.

EC – O quanto tuas passagens pela música, pelo jornalismo e agora pelo rádio ditam o ritmo da tua escrita?
Tom Belmonte – Minha escrita é sonora e sempre imaginada de forma visual. As cenas aparecem na minha mente como se descortinassem e conduzissem o trilho da narrativa textual. Entendo que ela precisa ter ritmo e entonação, ser fluida aos ouvidos e aos sentidos.

EC – Por que a ficção?
Tom Belmonte – Porque nela expresso muitas realidades que vi no jornalismo e outras tantas que habitam o meu imaginário, mas que também, quem sabe, sejam resquícios de algo não explicado, talvez ancestrais.

EC – Como tua espiritualidade permeia tua obra, que é sempre marcada pela violência?
Tom Belmonte – Minha espiritualidade dita o ritmo e a essência do meu texto. Assim como muitas pessoas, tive perdas humanas significativas, que redefiniram meu sentir e minha postura frente à vida. Desse tanto de dor e ausência, fiz do texto um terreno fértil para minha cura e gratidão por esses aprendizados. Estou ainda na capina: desço a enxada com força na minha terra para me curar. As narrativas retratam ego, vaidade, rancor, orgulho — sentimentos que todos carregamos, em maior ou menor grau, e que, nas minhas personagens, influenciam suas escolhas. Como bem disse Goethe, somos o resultado dessas escolhas. Expresso no texto a convicção de que o amor é a única base sólida para estarmos aqui com propósito, a forma única de elevação, e que, sem perdão, não há cura. Provoco minhas personagens a perceberem isso e a baixarem as armas. Apesar da aspereza e da poeira carnal da narrativa, proponho um exercício de reflexão e contemplação, para que, de alguma forma, elas sejam tocadas pela esperança em si mesmas e no outro.

EC – Quais autores e autoras te inspiram e por quê?
Tom Belmonte – Quando escrevo, não leio nada que possa ter relação com o momento de mergulho no imaginário e na construção textual. Isolo-me para arar lavouras ancestrais, ir a rincões que desconheço e escutar o que querem me dizer. Mas há autores com lugar cativo: Raymond Chandler, Jack Kerouac, Dashiell Hammett, Machado de Assis, Lima Barreto, a poesia de Mario Quintana e as tesouras afiadas de Clarice Lispector. Inspiro-me na humanidade que jorra das personagens e nas abordagens cirúrgicas do humano em sua beleza e contradição, sempre repletas de luzes e sombras — a mesma matéria-prima da minha literatura.

EC – Fale um pouco desse caminho que começou em Círculo de Sangue, passa agora por Rincão do Inferno e já aponta para o terceiro livro, Guerrilhas do Coração.
Tom Belmonte – A trilogia Círculo de Sangue se impôs naturalmente. Ao dissecar as personagens e suas motivações, percebi que havia muito mais nelas. Era preciso buscar no passado as razões para o presente, as origens e a complexidade dessas guerrilhas afetivas. Preciso ir à raiz do amor, do desamor e das fraturas emocionais — como retirar estilhaços de vidro da pele. É um exercício de divã textual e emocional.
Meus mocinhos e bandidos são humanos demais — sujos e feios, mas também belos em suas loucuras e reatividade. Em Guerrilhas do Coração, que fecha a trilogia, levo a história para o Farol de Santa Marta e arredores, na costa sul catarinense, misturando com a fronteira e Porto Alegre. É uma outra pampa, líquida, que convida a submergir em sentimentos e emoções. Quem sabe, a salgar e solarizar a vida para limpar carmas. Não sei o que virá, mas sei que será intenso e, tomara, apaziguador, mesmo que as guerras internas nem sempre terminem com bandeiras de paz.

EC – As capas dos teus livros remetem bastante à literatura pulp fiction, despojada, e que era vendida em bancas de jornais e era muito popular, além de manter distância intencional dos círculos literários. Teus projetos carregam um pouco dessa estética de forma conceitual ou apenas visual?
Belmonte
– Sim, esse é o cerne. Lia muito essa literatura na infância e adolescência. E o Everson Godinho, que fez as capas do Círculo de Sangue e do Rincão do Inferno, captou bem o que eu queria. Adoro essa linguagem textual e visual. Não tenho pretensões de fama ou qualquer coisa parecida com isso a partir da minha literatura. Na verdade, mesmo, sequer gosto de exposição demasiada. Minha literatura é apenas um campo aberto, um território sem placas, sinais ou cercas. Permite emoções se você se permitir aceitar as personagens nas suas luzes e sombras.

EC – O quanto ter vivido intensamente no rock, nas reportagens policiais, nas redações, nos bastidores da política e da polícia, e na busca por paz de espírito marca tua obra?
Belmonte – Minha vida como músico e como alguém que viveu a fase final de glória e declínio da cena cultural da Osvaldo Aranha e do Bom Fim, em Porto Alegre, está anexada ao contexto literário. São tatuagens emocionais, lembranças que guardo com carinho e respeito e que sempre me inspiram.
Também carrego as experiências das reportagens policiais no velho Correio do Povo, onde vi a tênue linha entre o bem e o mal, a barbárie humana e as desigualdades sociais que muitas vezes explicam a violência. Na lida policial, respira-se uma guerra constante, que pode endurecer ou, como no meu caso, fortalecer o espírito — desde que se saiba separar as coisas. Meu respeito aos que sobrevivem nessas editorias, fazendo uma “limonada” diária.
Vivi o outro lado na Secretaria da Segurança, onde conheci motivações e limitações e vi a entrega de muitos pelo coletivo, mas também de outros que talvez tenham perdido a fé em si, no humano e nas instituições.

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