Colunistas
Por respostas efetivas à violência de gênero
É no nível local que se pode articular medidas protetivas em rede, como visitas policiais,…

Benjamin Netanyahu disse a Donald Trump que o indicaria para o Prêmio Nobel da Paz na segunda-feira, 7, quando os dois líderes se encontraram pela primeira vez desde que os EUA lançaram ataques ao programa nuclear do Irã
Foto: Amos Ben Gershom/GPO/Governo de Israel
O cowboy e o xerife, o agente secreto, o detetive e o assassino profissional constituem o imaginário estadunidense. Presentes em filmes, quadrinhos, livros e revistas, esses “heróis” compõem imagens arquetípicas da identidade do país (um país como tantos outros da América, da América ampla e verdadeira, marcado pela colonização, genocídio indígena e escravização africana) e têm em comum o fato de serem homens brancos, solitários, em geral de poucas palavras, que, em um mundo hostil, estão habituados a dar conta dos problemas e da vida com as próprias mãos.
Não é à toa o fascínio dos EUA pela violência e pelas armas de fogo: seu horizonte cultural e a Segunda Emenda da Constituição dos pais fundadores representam justamente isso. E, nas encruzilhadas da história, é o direito de matar que batiza a fogo de bala a nação, seja o de matar a si mesmos, como comprovam a morte e os maus-tratos a negros, indígenas e imigrantes (ou o escandaloso número de homicídios dentro das escolas, lugar onde se ensina a conviver com a diferença), seja o de projetar a própria violência em outros países e, com a desculpa de que eles possam ter armamentos nucleares (os mesmos que os EUA têm), invadem-nos “preventivamente” em busca de expandir domínio, arrebanhar petróleo e, é claro, marcar esses territórios com a presença das armas e da Lei de morte ao próximo, que constitui o Estado do tio Sam.
Vale mencionar, que entre 1º de janeiro e 31 de agosto de 2023, ocorreram 28.293 mortes por armas de fogo nos Estados Unidos. As mortes em ações de mass-shooting foram 474. Os homicídios não intencionados por arma de fogo, ou seja, os mortos por acidente no manuseio de arma, foram 1.070.
Dito isso, nesse sentido, Donald Trump e seus asseclas anarcocapitalistas encarnam à perfeição as características do país: são homens brancos que se vendem como fortes ou que venceram na vida a partir dos próprios méritos (o mito do self-made men), cujas mulheres são companheiras silentes, verdadeiras Mulheres de Atenas, que cuidam do lar enquanto seus heróis se entretêm com aventuras de pilhagem.
Sendo assim, devemos a Trump a exposição da verdadeira face estadunidense: não a nação a exportar democracia, direitos humanos e a lutar por organizações multilaterais que visam à paz mundial, mas o país de conquistadores, sabotadores e piratas.
Nessa operação de desmascaramento, o Ocidente encontra o seu destino de lugar onde o sol se põe: não há valores postiços como razão, religião ou progresso a embelezar seus movimentos de pilhagem; existe apenas a face nua da sede de poder e de conquista, encarnada por aqueles que não precisam mais esconder que não possuem valor algum.
Por isso, não escandaliza ninguém que Benjamin Netanyahu, condenado pela Corte Penal Internacional por crimes de guerra, indique o agente laranja de Washington ao prêmio Nobel da Paz (o mesmo prêmio outorgado em 2009 a Barack Obama, rosto tragável do imperialismo, que mandou bombardear a Líbia 526 dias depois de tê-lo recebido).
Talvez nesse tipo de homenagem estejam presente louvores à Pax Romana, que durou aproximadamente de 27 a.C. a 180 d.C. (período “pacífico” no qual Cristo foi crucificado), a Pax Mongólica, do século XIII ao XIV, ou mesmo a pax possibilitada pela Guerra Fria – períodos durante os quais não houve grande ameaça aos territórios dos impérios, embora suas periferias tenham sido mergulhadas em rios de sangue.
No caso da Guerra Fria, o calor da guerra se estendeu a sangrentos conflitos na África, Ásia, Oriente Médio, além das cruéis ditaduras da América Latina, por exemplo.
Os filmes de Velho Oeste apresentavam moicanos, apaches e demais indígenas como cruentos vilões. A ilusão do cinema impedia que o espectador percebesse que os verdadeiros malfeitores estavam do outro lado, do lado “vencedor” da história.
Para os cowboys que vêm dos EUA, o mundo todo é um lugar a ser conquistado e a guerra uma oportunidade para potencializar seus negócios, como comprova a vassalagem dos representantes da Comissão Europeia, que pretendem destinar 5% do PIB dos países membros da Otan a fim de rearmarem-se e prosseguir a guerra de procuração dos EUA contra a Rússia, o que, por um lado, não vai apenas agravar a pauperização das políticas de Bem-Estar Social desses Estados, como também vai elevar o valor das ações das cinco maiores fábricas de armas do mundo: Lockheed Martin, Raytheon Technologies, Boeing, Northrop Grumman Corporation, General Dynamics, todas elas estadunidenses.
Devido a sua história e ao perfil das suas lideranças, os discursos que vêm de Washington devem ser postos sob suspeita, ainda mais quando incluem tarifaços e falsos discursos em nome da liberdade. Nos tempos que correm, o ditado Si vis pacem, para bellum (Se desejas a paz, prepara-te para a guerra) soa como alerta para tudo que pode vir por aqui.
É claro que também existem grandes obras e personalidades profundamente marcadas pela experiência estadunidense, como atestam o legado de Melville, Nina Simone, Ella Fitzgerald, Faulkner, Hemingway, Philip Roth, Toni Morrison etc., mas esses nomes também não deixam de ser as flores nascidas no lodo das nações.
Arthur Beltrão Telló é escritor, doutor em Teoria da Literatura, professor da PUCRS e dirigente sindical. Confira outros artigos do autor.