Banco, desdolarização e novos países: os três pilares da força do BRICS

Com alternativas ao uso do dólar no comércio internacional e ao FMI como fonte de financiamentos, e agregando nações do Oriente Médio, grupo mexe com o cenário global

Banco, desdolarização e novos países os três pilares da força do BRICS

Foto: Paulo Mumia/BRICS Brasil

Com pautas econômicas que focam em temas especialmente sensíveis aos Estados Unidos e em um ano marcado pela ruptura do país com o livre comércio – a partir da adoção de elevadas taxas de importação –, a nova reunião de cúpula do BRICS, ocorrida nos dias 6 e 7 de julho, mesmo sem a presença de Xi Jinping (que enviará o premiê chinês Li Qiang), e Vladimir Putin, que tem contra ele um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), segue atraindo interesse da imprensa mundial.

O BRICS tem como uma das bandeiras reduzir a hegemonia do dólar como moeda “oficial” em transações comerciais internacionais e criou uma instituição financeira que tem como principal propósito ser um contraponto ao FMI e ao Banco Mundial e seus critérios e ingerências na condução da economia dos países a quem enviam. Em conjunto, as duas propostas vêm sendo efetivamente executadas.

NESTA REPORTAGEM
Agrupamento simbólico de letras e países-fundadores criado há 16 anos – Brasil, Rússia, Índia e China – e adjetivado em parte de sua trajetória como inexpressivo e irrelevante, o BRICS é hoje um dos mais importantes atores no cenário geopolítico mundial, destacam especialistas em relações internacionais, como Marcos Cordeiro, um dos coordenadores do Grupo de Pesquisa do BRICS, localizado na Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Para o pesquisador, o BRICS deixou de ser considerado “uma piada” (por países como os EUA, especialmente) e passou a ser visto como uma “ameaça”.

Mas o que é ser um ator com voz potente neste “abstrato” conceito de geopolítica global? Dois exemplos concretos ajudam a entender o significado do termo e a atual força do grupo.

Por meio do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), criado em 2014 com um capital inicial de US$ 50 bilhões, o BRICS tem em mãos uma ferramenta estratégica. Em sua Estratégia Geral 2022-2026, o NDB estabeleceu a meta de que 30% de seus financiamentos sejam realizados na moeda local de cada um de seus membros até 2026.

No relatório anual de 2023, o banco reportou um total de US$ 31,9 bilhões em desembolsos desde 2016, dos quais US$ 21,29 bilhões foram concedidos em dólar norte-americano. As demais operações já foram realizadas em moedas utilizadas pelos países do grupo, como yuan (China), euro (alternativa ao dólar) e rands (África do Sul).

Desde 2023, a instituição está sob o comando da ex-presidente do Brasil Dilma Rousseff. A reação norte-americana ao avanço da proposta de reduzir a presença do dólar no comércio internacional explicitou ainda mais que o objetivo do BRICS não é apenas uma mensagem ideológica, mas também uma alternativa viável e possível. Em 2024, o ex-presidente dos EUA Donald Trump fez ameaças a esse movimento – apontado por analistas e estudiosos como a mais concreta ação efetiva já executada no caminho da desdolarização.

Em entrevista ao portal estadunidense Fox, Trump anunciou “tarifas de 100%” ao bloco de países caso tentem substituir ou se afastar do dólar americano e “exigiu” um compromisso formal do BRICS em não criar nem apoiar outra moeda para substituir o “poderoso dólar americano”. Sem isso, os países deveriam “se despedir de vender para a maravilhosa economia americana”.

Professor e coordenador do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (Nerit/Ufrgs), Paulo Visentini cita a iniciativa do BRICS e a reação de Trump como uma clara referência da evolução e importância alcançada pelo grupo 16 anos após sua formação, em 2009.

“O BRICS é um clube de países que não têm, ou ainda não tinham, uma posição na política global correspondente ao seu peso econômico crescente. Quem ainda avalia que o BRICS é irrelevante no cenário parte de um pensamento muito raso e desatualizado. Essa visão predomina inclusive na imprensa, que ainda não apresenta e noticia o BRICS e suas iniciativas como deveria”, critica Visentini.

Criação de banco materializa e fortalece o BRICS

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A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) materializou e fortaleceu o grupo

Foto: Xinhua / Reprodução

Reunir países com pautas diversas – muitas delas até dissonantes – e “se materializar” apenas em cúpulas anuais e comunicados com propostas desafiadoras estavam entre os argumentos usados para desvalorizar e menosprezar a importância do BRICS. Entre os críticos, fundamentalmente neoliberais, está Jim O’Neill, economista-chefe do Goldman Sachs, banco de investimento e serviços financeiros norte-americano, que criou o acrônimo BRIC, em 2001, em relatório no qual projetou o crescimento e a relevância de Brasil, Índia, China e Rússia nas décadas seguintes.

Ao criar o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e liberar seus primeiros financiamentos, no entanto, o grupo foi ganhando representatividade, passou a apresentar projetos concretos e enfraqueceu os argumentos neoliberais. Com a pandemia de covid-19, em 2020, o banco apoiou países do grupo rapidamente, oferecendo linhas de crédito para estabilização econômica, liberando US$ 10 bilhões em empréstimos voltados à recuperação e ao combate à crise sanitária. Além de contar com recursos financeiros, os países do bloco cooperaram entre si na distribuição de vacinas e insumos, fortalecendo seu papel como rede alternativa de apoio a diferentes iniciativas, nos campos da saúde, energia e outros.

Para a professora Angélica Massuquetti, doutora em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade e vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-RS), a relevância econômica do BRICS se deve à participação de países como China e Índia, pelo PIB e pela população, mas ainda não afeta o protagonismo dos EUA no cenário internacional.

“Os investimentos oriundos de instituições do BRICS, porém, são relevantes, especialmente para promover o avanço tecnológico dos países emergentes e reduzir a diferença de capacidade produtivo-tecnológica em relação aos países desenvolvidos”, avalia a economista.

CÚPULA DE 2025 – O grupo, originalmente composto por Brasil, Rússia, Índia e China, expandiu-se pela primeira vez com a admissão da África do Sul em 2011. Em 2023, foram admitidos Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Entre os temas tratados na cúpula – e, posteriormente, com acordos e propostas oficializadas –, estão cooperação em saúde global, comércio, investimentos e finanças, mudanças climáticas e governança da inteligência artificial. Os governantes e executivos debaterão, ainda, ações para o desenvolvimento institucional do próprio BRICS.

Adesão de países do Oriente Médio é emblemática

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Foto: Alexandre Durão / BRICS Brasil

Em 2023, um novo e marcante passo foi dado pelo BRICS. Durante a reunião de cúpula, a África do Sul anunciou o que seria um terceiro pilar de sustentação na busca por agregar ao grupo mais força, representatividade e relevância como promotor de mudanças no cenário mundial, rumo a um mundo menos centralizado nas decisões e dos movimentos norte-americanos e europeus.

De forma estratégica, o grupo anunciou a inclusão de novos países ao BRICS, como Arábia Saudita, Irã, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos. A entrada de nações do Oriente Médio explicitou que a busca atual é por uma conotação mais política e menos simbólica. O movimento, dissonante da proposta inicial de ser uma ação de fortalecimento e apoio mútuo no contexto Sul-Sul (apesar de contar com a Rússia), teria como base, por exemplo, a meta de ajudar a formatar um mundo multipolar, com espaço para novos anseios, projetos e propostas.

Com o anúncio da adesão de Arábia Saudita, Emirados Árabes e Egito – tradicionais aliados dos EUA –, o BRICS voltou a ser alvo de ameaças e temores de Trump. Aos Emirados Árabes, que chegaram a sinalizar mais aportes no NDB, o presidente norte-americano indicou esperar que a adesão fosse revista, para que as boas relações entre os dois países não fossem afetadas.

O recado surtiu efeito, e o ingresso dos Emirados Árabes virou uma incógnita. Apesar de constarem como integrantes oficiais do grupo em citações, documentos e no site do BRICS, os governos dessas nações estariam evitando confirmar se a assinatura de adesão foi efetivamente formalizada. Em maio deste ano, coincidentemente, os EUA divulgaram ter fechado um acordo de US$ 600 bilhões em investimentos com a Arábia Saudita, classificando o tratado como um “compromisso histórico” e uma “nova era dourada de parceria” entre as duas nações.

BRICS cobra reforma da ONU e defende multilateralismo

Banco, desdolarização e novos países os três pilares da força do BRICS

Foto: Alexandre Brum/BRICS Brasil

Os líderes do BRICS divulgaram no domingo, 6 de julho, a declaração final da 17ª Reunião de Cúpula do bloco, realizada no Rio de Janeiro sob a presidência brasileira. O documento reafirma o compromisso do grupo com o multilateralismo, a reforma da governança global e o fortalecimento da atuação dos países do Sul Global nos organismos internacionais.

“Reiteramos nosso compromisso com a reforma e com o aprimoramento da governança global”, diz o texto, que defende um sistema multilateral “mais justo, equitativo, ágil, eficaz, representativo, legítimo, democrático e responsável”. O documento também exige mudanças estruturais na Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente no Conselho de Segurança, para ampliar a participação de países em desenvolvimento da África, Ásia e América Latina — incluindo os próprios membros do BRICS.

Na declaração, os líderes celebram a entrada da Indonésia como novo membro pleno do grupo, que agora passa a contar com 11 integrantes. Também foram reconhecidos como países parceiros Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Nigéria, Malásia, Tailândia, Vietnã, Uganda e Uzbequistão.

Outros destaques incluem a aprovação da Declaração-Marco sobre Finanças Climáticas, da Declaração sobre Governança Global da Inteligência Artificial e o apoio ao lançamento da Parceria para a Eliminação de Doenças Socialmente Determinadas. “Essas iniciativas refletem nossos esforços conjuntos para promover soluções inclusivas e sustentáveis para questões globais prementes”, afirmaram os líderes.

A agenda da cúpula, que segue nesta segunda-feira, 7 de julho, inclui sessões plenárias sobre meio ambiente, saúde global e a próxima Conferência do Clima, a COP30. No domingo, os chefes de Estado participaram de debates sobre segurança internacional, reforma das instituições multilaterais e impactos da inteligência artificial. Na abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o papel do BRICS na mediação de conflitos e na promoção da paz global.

Com o tema “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”, a presidência brasileira no BRICS em 2025 concentra esforços em duas prioridades: fortalecer a cooperação entre países em desenvolvimento e fomentar parcerias para o desenvolvimento social, econômico e ambiental.

Bloco em números

O BRICS, agora formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, representa 48% da população mundial, 36% do território global e responde por 40% do PIB mundial. Em 2024, o comércio entre o Brasil e os países do grupo somou US$ 210 bilhões — cerca de 35% de toda a corrente de comércio brasileira.

As exportações brasileiras para os países do BRICS somaram US$ 121 bilhões no ano passado, com destaque para produtos como soja, petróleo, minério de ferro, carne bovina, açúcares e celulose. As importações, por sua vez, totalizaram US$ 88 bilhões, com predominância de combustíveis, fertilizantes e embarcações. O saldo comercial brasileiro no primeiro semestre de 2025 foi positivo: superávit de US$ 10,4 bilhões.

Segundo dados do Banco Central, os investimentos diretos dos países do BRICS no Brasil atingiram cerca de US$ 51 bilhões em 2024.

Lula critica ONU e cobra reformas na governança global durante Cúpula do BRICS

Durante a sessão Paz e Segurança, Reforma da Governança Global, realizada no domingo, 6 de julho, no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o mundo vive o “cenário global mais adverso” desde a criação das Nações Unidas e cobrou uma reforma profunda na governança internacional. A declaração ocorreu durante a 17ª Reunião de Cúpula do BRICS, grupo atualmente composto por 11 países.

Segundo Lula, o colapso do multilateralismo, somado à paralisia da ONU diante de conflitos e crises, compromete a paz e a segurança internacionais. “A ONU completou 80 anos no último dia 26 de junho e presenciamos um colapso sem paralelo do multilateralismo”, afirmou o presidente.

Ao lembrar que a criação da ONU marcou a derrota do nazi-fascismo e deu origem a uma esperança coletiva, Lula observou que boa parte dos atuais membros do BRICS estavam entre os fundadores da organização. Ele também destacou o papel da Conferência de Bandung, em 1955, que rejeitou a divisão do mundo em zonas de influência e defendeu a ordem multipolar. “O BRICS é herdeiro do Movimento Não-Alinhado”, frisou.

Críticas ao sistema internacional

Lula destacou que regimes fundamentais, como os de clima e comércio, estão sob ameaça, enquanto o sistema de saúde global sofre “uma investida sem precedentes”, especialmente em relação ao acesso a medicamentos. “Exigências absurdas sobre propriedade intelectual ainda restringem o acesso”, denunciou.

Para o presidente brasileiro, o direito internacional tem sido desrespeitado e as reuniões do Conselho de Segurança da ONU resultam em “perda de credibilidade e paralisia”. “É sempre mais fácil investir na guerra do que na paz”, disse, ao criticar o aumento dos gastos militares e a negligência com a Agenda 2030.

Lula condenou as intervenções unilaterais recentes e a manipulação de agências internacionais, como a Agência Internacional de Energia Atômica. “O temor de uma catástrofe nuclear voltou ao cotidiano”, advertiu. Ele também mencionou o fracasso das ações no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, cujas consequências ainda afetam o Oriente Médio, o Norte da África e o Sahel. “No vazio dessas crises não-solucionadas, o terrorismo encontrou terreno fértil”, alertou.

Conflito Israel-Palestina e guerra na Ucrânia

O presidente reafirmou a posição do Brasil em defesa de uma solução negociada para o conflito entre Israel e Palestina. “Nada justifica as ações terroristas perpetradas pelo Hamas. Mas não podemos permanecer indiferentes ao genocídio praticado por Israel em Gaza”, afirmou, defendendo o fim da ocupação e a criação de um Estado palestino soberano, com base nas fronteiras de 1967.

Sobre a guerra na Ucrânia, Lula voltou a condenar as violações à integridade territorial e destacou a iniciativa conjunta do Brasil e da China com o Grupo de Amigos para a Paz. “É urgente que as partes envolvidas aprofundem o diálogo direto com vistas a um cessar-fogo e uma paz duradoura”, disse.

Ele também criticou o abandono do Haiti pela comunidade internacional após o fim da missão da ONU no país e defendeu o fortalecimento da presença da organização, combinando segurança e desenvolvimento.

Propostas de reforma e papel do BRICS

Apesar do cenário adverso, Lula afirmou que a história das Nações Unidas também inclui conquistas, como a descolonização, a proibição de armas químicas e biológicas, e o sucesso de missões em países como Timor-Leste. “A América Latina fez a opção, desde 1968, por ser uma Zona Livre de Armas Nucleares”, lembrou, destacando ainda o protagonismo crescente da União Africana.

Para ele, o BRICS deve contribuir diretamente para uma nova estrutura de governança. “Se a governança internacional não reflete a nova realidade multipolar do século XXI, cabe ao BRICS contribuir para sua atualização”, declarou. Ele defendeu a ampliação do Conselho de Segurança da ONU com a inclusão de membros permanentes da Ásia, África, América Latina e Caribe. “É mais do que uma questão de justiça. É garantir a própria sobrevivência da ONU”, afirmou.

Lula concluiu o discurso reiterando o chamado à ação pela reforma da governança global lançado pelo Brasil na presidência do G20. “Cada dia que passamos com uma estrutura internacional arcaica e excludente é um dia perdido para solucionar as graves crises que assolam a humanidade”, finalizou.

 

 

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