A edição da própria face, o olhar dos outros e o teatro de máscaras

Moldar o próprio rosto mostra como desejamos ser vistos, embora após procedimentos que nos descaracterizam nos vejam com pena ou repulsa em relação à devastação que causamos a nós mesmos

A edição da própria face, o olhar dos outros, e o teatro de máscaras

Foto: Reprodução A SUBSTÂNCIA / Imagem Filmes/Universal Pictures

Não é novidade que tem crescido o número de procedimentos estéticos no Brasil e no mundo. Seja em jovens que, após cirurgias desnecessárias, ironicamente acrescentam duas décadas à própria aparência, seja em pessoas de mais idade, que, lutando contra o tempo em uma sociedade na qual ser jovem é um valor (ainda que sejamos governados por políticos setuagenários ou octogenários), muitos caricaturam o próprio rosto eliminando rugas e esticando a pele até suprimirem aquilo que era próprio, era seu: o rosto com que amou e foi amado. Por fim, seus olhos puxados, a pele de cera e os beiços inchados acabam se parecendo com o de tantas outras pessoas que passam pelas mesmas intervenções.

Para além das faces artificiais com as quais vamos nos acostumando à presença de Anittas, Estênios Garcias e outros, e para além dos índices que apontam o crescimento de 140% no número de intervenções estéticas em jovens, e passando ao largo do debate sobre a influência das redes sociais, da espetacularização da cultura e da autorreferencialidade viral e típica de uma cultura propagada por influenciadores de todos os quilates, chamam atenção os termos que utilizamos para descrever esse fenômeno e o pouco apreço que as pessoas demonstram pelo próprio rosto.

Se intervenção se origina de interventio, do latim inter (entre) e venire (vir), e significa uma ação de vir entre ou ao meio de algo ou alguém, implicando intromissão e interferência em processos naturais (no caso o envelhecimento e seu reconhecimento), a história por trás da palavra rosto também revela cenários muito interessantes. O termo grego que designa o rosto é a palavra πρόσωπον (prosopon), cuja origem remonta à ideia de προτιωπον – *protiōpon , literalmente ‘o que é oposto aos olhos do outro’ –, de modo que se entende a face como a barreira ou o limite que impede o olhar que poderia ir além, revelando como a construção da identidade é sempre mediada pela alteridade.

Mesmo a criatura mais narcisista, que, como a madrasta da Branca de Neve, passa os dias contemplando a própria face no espelho, ou como Narciso, que se perde no próprio reflexo, somos mais vistos pelos outros do que nos vemos. O rosto de cada um rasga a paisagem e se torna um ponto de referimento para o olhar daqueles que estão em torno a nós, construindo, nesse jogo, nossa identidade e reconhecimento social. Nesse sentido, em um mundo em que, pelo menos em tese, mais somos olhados do que nos olhamos, causa espanto a quantidade de interferências que produzimos a este objeto que o outro contempla e muitas vezes ama. Em um movimento que recorda a história do doutor Frankestein, na qual a criatura foge ao domínio do criador, é como se tentássemos ter controle do modo como seremos vistos, taxados e valorizados. O que importa não é tanto o que achamos do próprio rosto, mas o que os outros vão achar do nosso cartão de visitas.

Por outro lado, a palavra πρόσωπον também designava a máscara teatral e é do teatro que deriva a palavra latina persona, a máscara que os atores (hipócritas em grego) usavam para representar personagens e emoções e que, no processo histórico, passou a designar a ideia de pessoa como entendemos hoje. Isso significa que existe um vínculo ancestral entre o rosto e a performance no palco, como se a própria face ou a noção de pessoa não fosse apenas um corpo a captar ou obstruir o olhar alheio, mas também um papel a ser executado no teatro social. E é a este retorno do rosto à ideia de máscara que temos assistido hoje.

Em uma sociedade em que tudo se converte em espetáculo e a relação entre as pessoas é mediada por imagens e pelo desejo da edição da imagem com a qual queremos ser reconhecidos, usar a máscara apropriada faz parte da luta pela sobrevivência, pela manutenção de alguma ilusão de notoriedade no papel designado ou almejado, pela ilusão e fingimento de que se é protagonista em uma conjuntura cuja precariedade e devastação de vínculos solidários, relações trabalhistas, da vida democrática e do meio ambiente colocam o sujeito em uma posição impotente frente as contingências da vida.

Ludibriados pela esperança de poder brilhar ou ganhar sobrevida no palco de vaidades social, o rosto torna-se algo que não pertence à natureza e a seu processo de envelhecimento a marcar a ação dos anos e da vida em nós, mas transforma-se em um objeto a ser moldado pela própria vontade (uma vontade que, na maior parte das vezes, enfrenta a reviravolta e foge ao controle). Moldar o próprio rosto mostra como desejamos ser vistos, embora após procedimentos que nos descaracterizam – e, portanto, nos tiram do nosso caractere, do nosso personagem-, nos vejam com pena ou repulsa em relação à devastação que causamos a nós mesmos.

A máscara certa promete uma boa performance ou ao menos uma performance de quem é aceito pelo jogo e pelos preconceitos sociais (quantas mulheres não alisam seus cabelos para se embranquecerem em uma cultura racista que enxerga a cor branca como valor?). A vantagem da máscara é que esconde a pobreza de conteúdo, tornando-se o único meio de socialização quando não dispomos de mais nada a oferecer.

A tragédia desse processo é terminar como no poema Tabacaria, do heterônimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos:

 

Fiz de mim o que não soube

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

 

Por fim, cabe lembrar que rostrum, em latim, originalmente significava “bico de ave” ou “focinho”.

Há de se tomar precaução com os focinhos que obstruem a nossa vista por aí.

Dedico este texto à minha esposa, a psicanalista Gabrielle Farias Oliveira, que me mostrou a nova face da Anitta e me falou do pouco apreço que as pessoas têm do próprio rosto.

Arthur Beltrão Telló é escritor,  doutor em Teoria da Literatura, professor da PUCRS e dirigente sindical. Confira outros artigos do autor.

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