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Economista de formação, Salgado se reinventou nos anos 1970, ao sair do Brasil para se refugiar da ditadura militar instalada em 1964. Ele trocou uma promissora carreira de economista no setor financeiro pela fotografia, que o alçou a ícone da imagem documental mundo afora
Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil
Sebastião Salgado, um dos maiores nomes da fotografia documental do século 20, morreu nesta sexta-feira, 23, aos 81 anos. foi em Paris, onde vivia com a esposa e parceira de vida e trabalho, Lélia Wanick Salgado. A notícia foi confirmada pelo Instituto Terra, organização criada pelo casal em Aimorés (MG). Na sua cidade natal, Salgado assumiu a missão de recuperar áreas degradadas da Mata Atlântica.
A causa da morte estaria ligada a complicações de saúde decorrentes de uma malária contraída nos anos 1990 que debilitou sua condição física nas últimas décadas.
Economista de formação, Salgado se reinventou nos anos 1970, ao sair do Brasil para se refugiar da ditadura militar instalada em 1964. Ele trocou uma promissora carreira de economista no setor financeiro pela fotografia, que o alçou a ícone da imagem documental mundo afora.
Isso explica a forte repercussão nacional e internacional da morte do homem que por mais de quatro décadas registrou os maiores horrores cometidos pela espécie humana e as grandes belezas naturais do planeta.
Ao trocar os números pelas lentes e encontrar na fotografia uma forma de testemunhar a dignidade humana em meio à adversidade, Salgado viajou por mais de 120 países.
Documentou com maestria e sensibilidade trabalhadores braçais, populações deslocadas, indígenas ameaçados e realidades invisibilizadas.

Para Salgado, o fotógrafo precisava “ser aceito” por quem fotografava
Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil
Algumas vezes, chegou a ser incompreendido devido ao seu sucesso. Em entrevista ao El País, em 2019, ele chegou a desabafar: “Foi dito que eu fazia estética da miséria. Ridículo! Fotografo meu mundo”.
Ele não era um “fotógrafo de passagem”. Salgado mergulhava nos contextos. Em Êxodos, por exemplo, viveu com refugiados, deslocados e comunidades marginalizadas. Na mente, a ideia de registrar não só imagens, mas, também, histórias, rituais e relações humanas.
Para Salgado, o fotógrafo precisava “ser aceito” por quem fotografava. Isso, deixava claro, só vinha com tempo e convivência.
Projetos como Trabalhadores, o já citado Êxodos e Gênesis se tornaram marcos do olhar ético e estético de Salgado. Sua obra, marcada por imagens em preto e branco, combina rigor formal e potência emocional.
Salgado foi tema do documentário O Sal da Terra (2015), dirigido pelo cineasta Wim Wenders e por seu filho Juliano Ribeiro Salgado. O filme, além de ter sido indicado ao Oscar, recebeu o prêmio César de melhor documentário e o prêmio do júri na seção Um Certo Olhar, do Festival de Cannes.

Com introdução de Saramago e versos de Chico Buarque, o livro Terra retrata os acampamentos da reforma agrária
Foto: Cia. das Letras/ Reprodução
Sebastião sempre se mostrou solidário com causas importantes da sociedade brasileira. Em 1997, perambulou por acampamentos de sem-terras por todo o país e lançou o livro Terra (Cia das Letras, 144 p.), que teve toda a sua renda revertida para o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).
Uma obra que, além de suas fotografias, contou com a introdução de José Saramago e versos de Chico Buarque. Uma prova do poder de articulação do fotógrafo que também sugeria pautas para grandes jornais como O Globo.
Nessas sugestões, não cobrava por seu trabalho. Só pedia páginas para serem dedicadas a uma causa.
Mirian Leitão, em artigo lembra suas palavras: “Míriam, vamos para a Amazônia passar um tempo numa aldeia indígena de recente contato? Eles estão ameaçados, cercados de madeireiros. A gente se enfia na floresta, vamos entender isso. E conta no Globo. Quero só espaço de quatro páginas num domingo”, solicitou.
Após anos cobrindo tragédias humanitárias, como o genocídio em Ruanda, Salgado entrou em depressão. Foi nesse período que voltou a Aimorés. Lá, tinha como herança de família uma fazenda devastada. A esposa, Lélia, propôs replantar a floresta. Assim, nasceu o Instituto Terra.
A experiência de cura pessoal e ambiental moldou Gênesis. O projeto que celebrou regiões ainda preservadas foi uma virada que combina fotografia, militância e espiritualidade. Para críticos, quase um antídoto ao sofrimento testemunhado antes pelo fotógrafo.
O Instituto Terra se tornou referência mundial em restauração ecológica, com a recuperação de milhares de hectares de floresta da Mata Atlântica incluindo a área do Vale do Rio Doce.
Salgado passou, então, a ser um militante pela possível harmonia entre humanidade e natureza.

Imagem da África, da exposição Êxodos, que estreou no ano 2000 em São Paulo: Salgado registrou como ninguém a mobilidade dos povos em vários continentes
Foto: Sebastião Salgado/ Acervo Instituto Terra
Salgado era conhecido por um processo meticuloso. Fotografava majoritariamente em preto e branco, mesmo na era digital. Durante boa parte da carreira, usou câmeras analógicas Leica e depois passou para digitais de grande resolução . Sempre mantendo, no entanto, o cuidado com cada etapa do seu processo criativo, da captura das imagens à ampliação.
Ele tratava cada imagem como uma construção visual que demandava paciência, observação e respeito. Chegava a passar meses ou anos em campo para um único projeto. Gênesis é a prova disso. Levou quase 8 anos.
Em todos os passos do artista, a parceria com sua esposa. Lélia não só cuidava da edição, curadoria e design dos livros e exposições, como também foi a grande estrategista dos projetos. Salgado mesmo dizia que as imagens não existiriam sem ela.