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O recém-eleito Papa Leão XIV, natural de Chicago, concelebra a missa com o Colégio Cardinalício na Capela Sistina, no Vaticano, um dia após sua eleição como 267º pontífice da Igreja Católica Romana
Foto: Vatcan News
A eleição do cardeal norte-americano Robert Prevost ao papado, agora Leão XIV, provocou surpresa inicial, mas logo abriu espaço para uma onda de expectativa entre os setores mais progressistas da Igreja Católica.
Os primeiros sinais, tanto simbólicos quanto discursivos, indicam que seu pontificado deve seguir a trilha aberta por Francisco — de compromisso com os pobres, abertura pastoral e firme oposição às injustiças sociais.
No campo simbólico, a escolha do nome Leão também remete ao discípulo mais próximo de São Francisco de Assis, que inspirou o nome papal de Jorge Mario Bergoglio. O frei Leão reforça a imagem de lealdade e continuidade espiritual, como resume o jovem frade Franciscano Flávio Lorrane Clementino de Almeida, “a mensagem foi entregue ao mundo, e tenho certeza de que o legado do Papa Francisco continuará com o Papa Leão XIV”.
Embora o fato de ser o primeiro papa nascido nos Estados Unidos tenha gerado especulações sobre eventuais guinadas conservadoras ou americanizadas no Vaticano, foram justamente líderes latino-americanos e vozes defensoras da teologia da libertação que expressaram maior entusiasmo com a escolha.
O entusiasmo, na realidade, tem muito mais a ver com a ideia de não retrocessos no que foi realizado por Francisco até os seus últimos dias à frente da cátedra de Pedro, já que posições mais dogmáticas do novo pontífice sobre questões de sexualidade apontam para um papa mais conservador nesse sentido.
No geral, opção pelo nome Leão XIV foi imediatamente interpretada como um aceno direto a Leão XIII, papa que inaugurou a doutrina social da Igreja no final do século 19 com a encíclica Rerum Novarum.
Para especialistas, o novo pontífice sinaliza desde o início sua intenção de dar continuidade à ênfase em justiça social e atenção aos pobres.
Também franciscano, frei David Raimundo dos Santos, referência na luta contra o racismo na Igreja e diretor executivo da Educafro, endossa essa leitura e vê em Leão XIV a chance de reaproximação com os trabalhadores e as periferias: “Esperamos que esse nosso querido irmão consiga retomar esse rigor”, torce.
Frei David, ao lembrar a atuação de Prevost no Peru, apontou um traço de coragem pouco visível à primeira vista. “Ele exigiu do presidente Fujimori que pedisse perdão ao povo peruano por todas as injustiças que cometeu contra os pobres”, contou. “É um homem discreto, mas corajoso, que sabe colocar o dedo nas feridas”, declara
O Vigário Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, padre Júlio Lancellotti destacou os gestos simbólicos do novo papa. Para ele, o uso de sapatos pretos em vez dos vermelhos tradicionais, a exemplo de Francisco, “significa o caminho que ele fará. O novo papa pisará o caminho do povo e da vida e não seguirá o dos príncipes”. Para o padre Júlio, a escolha revela um perfil pastoral comprometido com as margens, com os imigrantes, os refugiados e os grupos socialmente excluídos.
Padre Paulo Bezerra, pároco da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, São Paulo, com trajetória marcada pelo compromisso com as Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), destaca o caráter pacifista do novo papa. “Ele iniciou seu discurso com a palavra paz”. Isto para o religioso contrasta diretamente com líderes políticos de retórica belicista. Padre Paulo ainda lembra que a experiência de Leão XIV na América Latina, especialmente no Peru, reforça um olhar atento às injustiças do Sul Global.

O Papa Leão XIV profere sua homilia durante sua primeira missa como papa com os cardeais que o elegeram na Capela Sistina, no Vaticano
Foto: Vatcan News
A reação dos setores mais conservadores foi, até aqui, contida. Muito influente nas redes sociais, padre Paulo Ricardo, limitou-se a publicações protocolares, como o tradicional “Habemus Papam”.
Poucos comentários de setores tradicionalistas sobre o novo pontífice certamente é um sinal de expectativa cautelosa ou mesmo de reserva diante de um papa que parece seguir os passos do antecessor.
Frei Betto lembra que, ao contrário do que se possa supor, rupturas recentes na Igreja Católica nunca partiram dos progressistas: “Foram os conservadores que romperam, como o caso de Lefebvre”, acentua.
Marcel Lefebvre foi um arcebispo católico francês conhecido por sua oposição às reformas do Concílio Vaticano II (1962–1965). Em 1970, fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) com o objetivo de preservar a liturgia tradicional (Tridentina) em latim e da teologia pré-conciliar. Em 1988, ao ordenar bispos sem autorização papal, foi excomungado por João Paulo II.
Apesar de Lefebvre ter provocado um cisma na Igreja Católica – ser uma figura central no tradicionalismo e permanecer controverso – a FSSPX teve sua readmissão na estrutura eclesial por Bento XVI. Mas, se os então bispos sagrados por Lefebvre tiveram suas excomunhões suspensas, o mesmo não ocorreu com o francês.
Uma coisa é certa, a história parece se repetir nas hostes católicas. Para alguns analistas, Leão XIV poderá ter um papel similar ao de Paulo VI em relação a João XXIII que deu início ao Vaticano II.
Depois de Francisco, pode estar assumindo alguém que não apenas compartilha a mesma inspiração, mas tem a missão de organizar e consolidar pastoralmente os avanços promovidos por seu antecessor.
Todos os sinais até o momento parecem dizer que sim. Mas, Frei Betto – antes mesmo do Conclave que elegeu Leão XIV – disse algo muito interessante: “Eu costumo dizer que o poder não muda ninguém. O poder faz com que as pessoas se revelem. Qualquer poder, desde síndico de prédio, a gerente de farmácia, o poder faz com que as pessoas se revelem. Bergoglio, uma vez eleito, mostrou que ele era um homem progressista; muito mais do que se esperava. Ele estava totalmente afinado com a teologia da libertação”, registrou.