MST mostra produção da reforma agrária e cobra terras para 120 mil famílias acampadas

Em sua quinta edição, Feira da Reforma Agrária se consolida como um dos maiores encontros da agricultura familiar do Brasil, com comercialização de 500 toneladas de alimentos
Feira da Reforma Agrária mostra produção da agricultura familiar e cobra assentamento de 120 mil famílias acampadas

Realizada no Parque da Água Branca, em São Paulo, iniciativa reúne cerca de 2 mil expositores de 24 estados e é marcada por ações solidárias como a doação de alimentos e debates sobre a reforma agrária

Foto: Marcelo Menna Barreto

Começou nesta quinta-feira, 8, no Parque da Água Branca, em São Paulo, a 5ª Feira Nacional da Reforma Agrária, realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em sua quinta edição, o evento bianual se consolida como um dos maiores encontros da agricultura familiar camponesa no Brasil, combinando comercialização de alimentos, atividades culturais e debates políticos.

A feira, que segue até domingo, 11, oferece ao público mais de 500 toneladas de alimentos produzidos em assentamentos de todo o país, 100 pratos típicos nas 23 cozinhas regionais da “Culinária da Terra”, além de apresentações artísticas e espaços dedicados à agroecologia e à inovação no campo. A expectativa é receber mais de 300 mil pessoas durante os quatro dias de evento.

Durante a coletiva de imprensa que antecedeu a abertura oficial, a alagoana Débora Nunes, da Coordenação Nacional do MST, destacou a feira como expressão da luta por terra, soberania alimentar e justiça social. “A feira é mais uma jornada de luta. É consequência de um processo de organização e de ocupação que permite hoje a oferta de alimento saudável à cidade”, afirmou. Ela ressaltou ainda o caráter formativo do evento: “Queremos debater com a sociedade temas fundamentais como a agroecologia, o alimento saudável como direito e a preservação ambiental.”

MST mostra produção da reforma agrária e cobra terras para 120 mil famílias acampadas_2

Márcio Santos e Débora Nunes, da Coordenação do MST, ressaltaram que o evento tem um caráter formativo em relação a agroecologia, alimento saudável como direito e a preservação ambiental

Foto: Marcelo Menna Barreto

Solidariedade

A iniciativa que reúne cerca de 2 mil expositores de 24 estados, mantém uma característica do MST: a promoção de ações solidárias. Em agradecimento à população que acolhe a feira, serão doados 25 toneladas de alimentos a pelo menos 50 organizações sociais da capital paulista. O movimento ainda distribuirá gratuitamente 15 mil mudas e 500 quilos de sementes durante os quatro dias.

Márcio Santos, da coordenação do MST em São Paulo, enfatizou que a feira já integra o calendário oficial da cidade e se consolida como um patrimônio cultural da população. “Não tem mais volta. Essa feira vai ocorrer por longos anos, talvez décadas, e fará parte da cultura da cidade de São Paulo”, disse. Para ele, a feira é “uma pequena mostra da vida cotidiana dos assentamentos. É uma pequena mostra do que é o cumprimento da função social da terra em nosso país.”

Ao comentar a desigualdade fundiária no Brasil, Márcio afirmou: “1% dos proprietários controlam mais de 50% das terras e, mesmo assim, não garantem comida na mesa dos brasileiros. Nós, com a agricultura familiar, produzimos vida, biodiversidade e alimentos de verdade.” Ele também destacou que a agroecologia, matriz produtiva do MST, “não é só um jeito de plantar, é uma nova lógica de convivência com os biomas, de comércio justo e de produção diversificada”.

Reforma Agrária, sustentabilidade e o Papa

MST mostra produção da reforma agrária e cobra terras para 120 mil famílias acampadas

“Seremos assentados, acampados, em luta, até que exista uma única família sem terra neste país”, conclamou Gilmar Mauro, dirigente nacional do MST

Foto: Marcelo Menna Barreto

Durante a coletiva, os dirigentes do MST também foram instigados pela imprensa a abordar temas como os entraves no Congresso Nacional, a urgência no assentamento de cerca de 120 mil famílias acampadas e os desafios enfrentados com a insegurança em áreas de reforma agrária.

O atentado em Tremedal (BA), que vitimou integrantes do movimento, foi citado como exemplo da atuação de grupos criminosos ligados ao latifúndio.

Outro destaque foi o compromisso do MST com a sustentabilidade. O movimento anunciou a substituição do uso de caldeiras a lenha por energia solar em suas agroindústrias e o plantio de 100 milhões de árvores nos próximos dez anos, além de cobrar políticas públicas para inovação no campo.

A feira ainda prestará uma homenagem ao Papa Francisco, falecido em 21 de abril. Reconhecido pelo MST como aliado das causas populares e ambientais, o pontífice será lembrado em diferentes momentos da programação por sua defesa dos pobres e da “casa comum”. Em diversas bancas se notam partes do discurso do pontífice onde ele pediu por “nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos”.

Abertura oficial

MST mostra produção da reforma agrária e cobra terras para 120 mil famílias

ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, anunciou novas áreas desapropriadas e assentamentos em estados como Bahia, Pernambuco, Pará, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Paraná

Foto: Marcelo Menna Barreto

Na abertura oficial do evento, realizada às 12h30min, o dirigente nacional do MST, Gilmar Mauro, saudou as autoridades presentes e reforçou que a realização da feira só é possível graças à luta contínua pela terra. “Para ter feira, precisou ter assentamento. Para ter assentamento, precisou ter ocupação de terra”, declarou. Mauro relembrou que o MST segue unido, reunindo assentados e acampados, e afirmou: “Seremos MST assentados, acampados, em luta, até que exista uma única família sem terra neste país.”

O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, também participou da cerimônia e reconheceu a importância da mobilização social para que a Reforma Agrária avance. “Movimento que não faz pressão é pelego”, disse, em tom enfático, afirmando que a luta por terra é legítima diante de um Estado historicamente aliado ao latifúndio.

Teixeira destacou que o governo Lula está com o “pé no acelerador” e cumpre a maior meta da história recente da Reforma Agrária, com metade já atingida em 2024. Ele anunciou novas áreas desapropriadas e assentamentos em estados como Bahia, Pernambuco, Pará, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Paraná. “Estamos revertendo o desmonte deixado pelo governo anterior, mas ainda é preciso romper com a lógica das emendas parlamentares que fragmentam os recursos públicos”, alertou.

Com entrada gratuita, a 5ª Feira Nacional da Reforma Agrária segue até domingo, 11, reunindo produtores, artistas, pesquisadores, ativistas e visitantes em torno de uma agenda que une cultura, política e alimento saudável.

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