Colunistas
Por respostas efetivas à violência de gênero
É no nível local que se pode articular medidas protetivas em rede, como visitas policiais,…

Foto: Karoline Leavitt/White House Press Secretary
Em mundo onde um presidente saído dos estúdios de TV e em cujo programa se colocava como o mestre poderoso a demitir ou proteger seus aprendizes, a política se vincula mais do que nunca ao entretenimento. Seja a barafunda mequetrefe de quem declara que vai invadir a Groelândia, anexar o Canadá, fazer da Faixa de Gaza uma imitação cafona de Miami ou explorar os minérios da Ucrânia, para camuflar o sucateamento e destruição da estrutura pública do seu país, ou então para encobrir o empobrecimento de grande parte da população; seja a tentativa de um governo de frente ampla de estancar o desgaste da sua popularidade, em um cenário no qual a renda tem aumentado e o desemprego diminuído apesar da percepção popular não ser essa e, sim, o cenário de precarização geral, política e showbizz tornam-se sinônimos ou irmãos siameses que não podem ser separados.
E, nesse jogo, ganha audiência aquele que vende a melhor atração, promovendo o engajamento das massas. Como escreveu Guy Debord em A sociedade do espetáculo, vivemos mediados por imagens e representações, desarticulados da experiência real, pois o que aparece nas telas tem um efeito de realidade muito mais convincente. Episódio exemplar desse processo é a história contada por Zizek a respeito do ator pornô que, tendo broxado em cena, precisou recorrer ao Smartphone para ver filmes pornôs de modo a se colocar novamente em ação. O que o filósofo do Leste Europeu queria demonstrar é o quanto precisamos recorrer às telas para sentir a realidade, pois ela não nos parece suficiente, não nos convence. O que ele esquece, porém, é que, mesmo o sexo feito entre profissionais, não exclui sentimentos de empatia e o mínimo de civilidade para se colocarem nos papéis e nas posições necessários.
O que me parece faltar nessa conjuntura cheia de histrionismo oportunista e desencontro é justamente a conexão com os demais, a ação do sujeito de querer se colocar em relação com o outro, em corpo a corpo com o outro para, assim, criarmos comunidades que se sintam participantes e promotoras de mudanças dentro de seus contextos.
Giorgio Agamben, em seu trabalho de filólogo; ou seja, de amante das palavras e dos textos por elas produzidos, chama atenção para o uso político que fazemos de duas expressões que se originaram no campo da astronomia: conjuntura e revolução. Enquanto a revolução diz respeito ao movimento de um planeta que percorre sua órbita, a conjuntura, que designa “a fase do ciclo econômico que a atividade econômica atravessa em um dado período de duração breve”, constitui uma modificação do termo conjunção, que significa a coincidência de mais astros em um determinado momento.
Em coluna que mantém no site da editora Quodlibet, o autor de Homo Sacer recorre ao texto de Davide Stimilli, que cita uma interessante passagem do ensaio de Warburg sobre A adivinhação pagã antiga em textos e imagens da época de Lutero, na qual ocorre a aproximação das palavras conjunção e revolução: “Somente durante vastos decursos de tempo, chamados revoluções, era possível esperar tais conjunções. Em um sistema argutamente concebido, distinguiam-se conjunções grandes e máximas; estas últimas eram as mais perigosas, devido ao efeito do encontro entre os planetas superiores Saturno, Júpiter e Marte. Quanto mais as conjunções coincidiam, tanto mais terrível parecia o fato, embora o planeta de caráter mais favorável pudesse influenciar o pior”.
Para Agamben, o que acontece diante dos nossos olhos é um fenômeno deste gênero, no qual uma conjuntura econômica contingente e arbitrária tenta impor seu terrificante domínio sobre toda a vida social (e no qual, podemos agregar, o falso espetáculo encobre interesses predatórios diversos). “Será necessário, portanto, abandonar sem reservas o nexo entre a política e as estrelas e cortar de cada lugar o vínculo que pretende nos atrelar ao destino astronômico e revolucionário […]. A política não está inscrita nas esferas celestiais nem nas leis da economia: está nas nossas débeis mãos e na lucidez com a qual nos negamos a nos prender em conjunturas e revoluções.”
Neste céu carregado de estrelas arbitrárias e contingentes querendo chamar atenção para si, erramos ao fazer da resistência nossa palavra. Resistência é sobreviver no jogo do outro, é resistir a um naufrágio inevitável e iminente. Segundo a física, resistência é a capacidade de um material se opor a uma força contrária. Nessa “conjuntura”, é preciso resgatar outras palavras e criar novas ações, inventar ou descobrir novas formas de vínculo e mudança que toquem a realidade e não se convertam apenas em números de audiência de tantos espetáculos ruins.
Arthur Beltrão Telló é professor da PUCRS, do Colégio Gabarito e escritor.